“Acha que segunda já tenho que estar fora?”: mensagens colocam Moraes no centro do caso Vorcaro

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Diálogos extraídos pela Polícia Federal mostram Daniel Vorcaro questionando se deveria deixar o Brasil dois dias antes de ser preso. Mensagens foram reveladas pelo Estadão e analisadas pela PF

Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), se deveria deixar o Brasil apenas dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal.

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”, escreveu Vorcaro em 15 de novembro de 2025, segundo mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do empresário e reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A pergunta ocorreu em meio ao avanço da Operação Compliance Zero, investigação que atingiria diretamente os negócios do banqueiro. Quarenta e oito horas depois, em 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo, quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Malta e, posteriormente, Dubai.

Mensagens indicavam preocupação com a prisão

A conversa não se limitou à pergunta sobre deixar o país.

Ainda em 15 de novembro, Vorcaro teria questionado o interlocutor identificado pela investigação como Moraes sobre o juiz responsável pelo caso e se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tinha conhecimento da situação.

“Conseguimos fazer algo?”, perguntou o empresário.

No dia seguinte, 16 de novembro, a preocupação aumentou. Vorcaro voltou a procurar Moraes e perguntou:

“Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”

Segundo o Estadão, naquele momento a ordem de prisão ainda não havia sido assinada. O decreto de prisão preventiva seria assinado somente às 15h29 de 17 de novembro pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal.

Vorcaro foi preso quando tentava viajar

Na noite de 17 de novembro, a previsão que preocupava Vorcaro se concretizou.

A Polícia Federal prendeu o empresário no Aeroporto Internacional de São Paulo. Segundo a apuração publicada pelo Estadão, ele estava prestes a viajar para o exterior, em um voo que passaria por Malta antes de seguir para Dubai.

A viagem ocorria enquanto Vorcaro tentava concluir a venda do Banco Master para um grupo formado pela Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos.

No dia seguinte à prisão, o Banco Central determinou a liquidação do Banco Master.

“Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

As mensagens analisadas pela PF mostram que Vorcaro continuou buscando informações mesmo no dia em que acabou preso.

Às 17h26 de 17 de novembro, ele teria enviado uma nova mensagem perguntando:

“Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

Em outro trecho, o empresário pediu que fossem impedidas medidas contra ele e argumentou que uma ação naquele momento poderia provocar graves consequências para o banco.

Segundo o Estadão, investigadores interpretaram o conjunto das mensagens como possível indício de que Vorcaro tinha conhecimento antecipado de medidas que estavam sendo preparadas pela Polícia Federal. A reportagem também afirma que os diálogos sugerem que o interlocutor identificado como Moraes poderia estar discutindo com o banqueiro detalhes sensíveis da operação.

PF não recuperou as respostas de Moraes

Há, entretanto, uma limitação importante na análise das mensagens.

De acordo com as informações divulgadas pela PF e reproduzidas pelo UOL, Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas do celular, fazia uma captura de tela e enviava o conteúdo pelo WhatsApp em modo de visualização única.

O mesmo procedimento teria sido utilizado nas respostas atribuídas a Moraes.

Com isso, a perícia conseguiu recuperar as mensagens enviadas por Vorcaro, mas não as respostas do interlocutor. Portanto, não é possível saber, a partir desse material, exatamente o que Moraes respondeu às perguntas do empresário.

Essa circunstância é fundamental para a compreensão do caso: as mensagens mostram o que Vorcaro perguntou e pediu, mas não permitem, isoladamente, conhecer o conteúdo das eventuais respostas dadas pelo ministro.

Caso coloca Moraes sob escrutínio

A divulgação dos diálogos aumenta a pressão sobre Alexandre de Moraes e acrescenta um novo capítulo à investigação envolvendo o Banco Master.

O ministro André Mendonça, relator do caso no STF, passou a analisar o material depois que a Polícia Federal identificou o interlocutor das mensagens como Moraes.

Mendonça solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República antes de decidir sobre os próximos passos da investigação. O ministro também determinou a retirada do sigilo de documentos relacionados à apuração.

A situação é particularmente sensível porque a investigação envolve diretamente um integrante do próprio Supremo.

Outras mensagens ampliam o caso

Os novos diálogos fazem parte de um conjunto maior de mensagens encontradas no celular de Vorcaro.

Segundo reportagens publicadas nesta terça-feira, o empresário teria procurado o interlocutor identificado como Moraes para tentar obter ajuda diante de medidas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.

Em determinadas mensagens, Vorcaro teria mencionado os nomes de Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República, perguntando se seria possível impedir ou retardar medidas contra ele e contra o Banco Master.

Também vieram a público informações sobre encontros entre Vorcaro e Moraes e sobre um contrato milionário entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A Polícia Federal analisa esses elementos dentro do contexto mais amplo do caso.

Moraes já contestou parte das acusações

O ministro Alexandre de Moraes já negou anteriormente algumas das acusações relacionadas às conversas com Vorcaro.

Em manifestação anterior, seu gabinete afirmou que determinado contato apresentado como sendo de Moraes não correspondia ao número utilizado pelo ministro. A situação agora ganhou novos contornos após a perícia das mensagens e a identificação do interlocutor pela Polícia Federal.

Até o momento, as mensagens divulgadas não constituem, por si só, prova definitiva de que Moraes tenha cometido crime ou interferido ilegalmente na investigação. A própria impossibilidade de recuperar as respostas do interlocutor é uma limitação relevante para a interpretação do material.

O que está comprovado é que a Polícia Federal encontrou mensagens no celular de Vorcaro e que, segundo a investigação, o interlocutor foi identificado como Alexandre de Moraes. A partir daí, cabe às autoridades esclarecer o conteúdo completo das comunicações, a origem das informações eventualmente compartilhadas e se houve ou não qualquer conduta irregular.

O que vem agora

Com a retirada do sigilo e o avanço da investigação, o caso deverá ganhar novos desdobramentos nos próximos dias.

A Procuradoria-Geral da República deverá se manifestar sobre os elementos apresentados pela PF, enquanto André Mendonça avaliará quais providências serão tomadas dentro do inquérito.

O episódio coloca novamente o STF, a Polícia Federal, a PGR e o caso Banco Master no centro de uma disputa institucional de grandes proporções.

Para além da pergunta que se tornou o símbolo das novas revelações — “Acha que segunda já tenho que estar fora?” — a questão central agora é outra:

por que Daniel Vorcaro acreditava que poderia obter informações sobre uma possível operação da Polícia Federal por meio de seu contato com um ministro do Supremo?

A resposta dependerá da análise completa das mensagens, das perícias e das manifestações das autoridades responsáveis pela investigação.

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