Gilmar Mendes acusa Mendonça de atuação político-eleitoral e dispara: “Até a máfia tem ética”
Declarações durante sessão do STF provocaram bate-boca entre os ministros no julgamento que analisa questões relacionadas ao Caso Master e a Alexandre de Moraes
Brasília — A sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) desta terça-feira (15) foi marcada por um forte confronto verbal entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça durante a discussão de questões relacionadas ao Caso Master e às acusações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.
Decano da Corte, Gilmar Mendes fez duras críticas à condução dos procedimentos relacionados ao Banco Master e acusou Mendonça de atuar com um “inequívoco viés político-eleitoral”.
Em uma das declarações mais contundentes da sessão, Gilmar afirmou: “Até a máfia tem ética”. O ministro também classificou a condução atribuída ao colega como “covarde” e “vil”.
As declarações foram feitas durante o debate sobre o relatório da Polícia Federal que reúne informações relacionadas a Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.
Gilmar fala em “jogo de omertá”
Durante sua manifestação, Gilmar Mendes comparou a situação a um “jogo de omertá”, expressão associada ao código de silêncio tradicionalmente relacionado à máfia italiana.
Segundo o ministro, a gravidade de determinadas informações não poderia ser tratada de maneira diferente dependendo do magistrado envolvido.
“Como se a gravidade da notícia variasse conforme o nome do magistrado a que se refere, ou conforme o tribunal que ele integra”, afirmou Gilmar.
O ministro defendeu que um tribunal precisa preservar condições para deliberar de maneira independente e criticou aquilo que considera uma condução inadequada da apuração.
Críticas ao momento eleitoral
Gilmar também relacionou sua crítica ao calendário eleitoral de 2026.
Segundo ele, uma “apuração parcial é apuração viciada” e decisões envolvendo um caso de tamanha repercussão não deveriam ser conduzidas de forma que pudesse gerar suspeitas sobre possíveis consequências políticas.
O ministro afirmou ainda que haveria um interesse eleitoral na forma como o caso estava sendo conduzido e utilizou a expressão “pixuleco eleitoral”.
Para Gilmar, qualquer resultado produzido pelo tribunal poderia ficar sob suspeita caso a condução do processo fosse considerada parcial.
Mendonça reage durante a sessão
As declarações provocaram uma reação imediata de André Mendonça.
Após Gilmar acusá-lo novamente de condução político-eleitoral, Mendonça respondeu de forma contundente e pediu respeito durante o julgamento.
“Não aponte o dedo para mim, ministro Gilmar. Não está falando com qualquer um. Respeite este tribunal”, afirmou Mendonça.
O episódio transformou o debate processual em um dos momentos mais tensos da sessão.
Caso Master amplia divisão dentro do STF
O confronto entre Gilmar Mendes e André Mendonça ocorre em meio a uma sequência de divergências dentro do STF relacionadas ao Caso Master.
A controvérsia ganhou força depois que Mendonça, relator de uma das frentes relacionadas ao caso, determinou a divulgação de documentos produzidos pela Polícia Federal. Entre os materiais estão informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, incluindo mensagens que a PF atribui a comunicações com Alexandre de Moraes.
Moraes nega irregularidades e apresentou defesa contestando a condução do procedimento.
A discussão também envolve divergências sobre o acesso às provas, a divulgação de informações sob sigilo, a atuação da Polícia Federal, a competência para analisar os fatos e a própria organização dos processos dentro do Supremo.
Julgamento segue sem análise do mérito
Apesar da intensidade dos debates, o STF não chegou, na sessão de terça-feira, à decisão sobre a abertura ou não de uma investigação contra Alexandre de Moraes.
O julgamento acabou interrompido após pedido de vista do ministro Flávio Dino, que suspendeu a análise da questão processual que estava sendo discutida.
Até aquele momento, o Plenário registrava 4 votos a 3 pela manutenção separada dos processos relacionados a Moraes e Mendonça.
Assim, a Corte ainda terá de superar as divergências processuais antes de avançar para a análise do mérito.
O episódio desta terça-feira deixou evidente que, além das questões jurídicas envolvendo o Caso Master, o STF enfrenta uma disputa interna sobre os limites da atuação de seus próprios ministros e sobre a forma como um caso de forte repercussão institucional deve ser conduzido.
As acusações feitas durante a sessão representam manifestações dos próprios ministros e não constituem, por si só, conclusões judiciais sobre a existência de irregularidades.