RICARDO SALLES DESISTE DO SENADO A SEIS DIAS DA ELEIÇÃO — E PASSA A APOIAR ADVERSÁRIO QUE ATACOU DURANTE A CAMPANHA

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Ex-ministro de Bolsonaro desiste a seis dias da eleição, passa a apoiar André do Prado e Guilherme Derrite e encerra uma campanha marcada por críticas ao próprio campo político

A candidatura de Ricardo Salles (Novo) ao Senado por São Paulo terminou na reta final das eleições de 2026, depois de meses de uma campanha marcada por confrontos dentro do próprio campo político.

Na segunda-feira (28), a seis dias do primeiro turno, Salles anunciou sua desistência ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e declarou apoio a André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP), justamente dois nomes que passaram a receber o apoio do grupo político de Tarcísio na disputa pelas duas vagas paulistas ao Senado.

A mudança chamou atenção porque, durante boa parte da campanha, Salles havia feito críticas duras a André do Prado. Em julho, chegou a defender publicamente que Prado desistisse da disputa e afirmou que o deputado não representava a direita.

Em entrevista publicada em maio, Salles chegou a dizer que não havia “a menor hipótese” de alguém que considerasse decente apoiar Prado. Agora, os dois aparecem juntos no acordo que encerrou sua candidatura.

A origem do conflito

A disputa ganhou novos contornos depois que Eduardo Bolsonaro deixou de concorrer à suplência de André do Prado. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro havia sido inicialmente indicado para ocupar a posição, mas desistiu após seus advogados avaliarem riscos relacionados à sua situação eleitoral. Prado confirmou posteriormente que Eduardo mantinha seu apoio à chapa.

Com a saída de Eduardo, a composição da disputa pelo Senado em São Paulo ficou ainda mais aberta.

Foi nesse ambiente que Salles consolidou sua candidatura pelo Novo e passou a disputar espaço dentro do eleitorado identificado com a direita.

O ex-ministro já havia demonstrado disposição para seguir caminho próprio em disputas anteriores. Em 2024, por exemplo, depois de organizar um jantar com Pablo Marçal, Salles declarou apoio ao então candidato do PRTB à Prefeitura de São Paulo, enquanto Jair Bolsonaro apoiava a reeleição de Ricardo Nunes.

O confronto com André do Prado

Durante a campanha de 2026, Salles transformou André do Prado em um dos principais alvos de seus ataques políticos.

O deputado do Novo questionava a ligação de Prado com o PL e com o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, além de afirmar que o candidato não representava aquilo que considerava ser a direita.

Em determinado momento, Salles chegou a defender publicamente que Prado abandonasse a disputa.

A campanha também foi marcada por episódios jurídicos. Segundo levantamento publicado pelo UOL, o TRE-SP determinou a remoção de vídeos divulgados por Salles e aplicou multa de R$ 5 mil em um dos episódios; anteriormente, ele havia recebido outra multa, de R$ 10 mil, por propaganda negativa antecipada.

As pesquisas e a mudança de estratégia

A poucos dias da eleição, Salles aparecia atrás dos principais candidatos nas pesquisas.

Na pesquisa Datafolha divulgada em 24 de setembro, ele tinha 4% das intenções de voto, enquanto Marina Silva aparecia com 15%, Simone Tebet com 14%, e André do Prado e Guilherme Derrite com 12% cada. A margem de erro era de dois pontos percentuais.

Foi nesse cenário que a estratégia mudou.

Segundo o próprio Salles, a matemática eleitoral mostrava o risco de sua candidatura contribuir para a divisão dos votos do campo político ao qual pertence. Em entrevista ao SBT News após a desistência, ele afirmou que não queria ser responsável por uma eventual derrota da direita e que havia risco de perda de uma das vagas.

Tarcísio também apresentou a decisão como uma tentativa de evitar a fragmentação dos votos e fortalecer as candidaturas de Prado e Derrite.

Do ataque ao apoio

O ponto mais simbólico da reviravolta foi justamente a mudança de posição em relação a André do Prado.

O mesmo candidato que havia sido alvo de críticas durante meses passou a receber o apoio de Salles na reta final.

Para Salles, entretanto, a decisão passou a ser apresentada como uma escolha política diante do cenário eleitoral e da necessidade de união.

Para seus críticos, a mudança levanta questionamentos sobre a coerência de sua estratégia durante a campanha.

A candidata Marina Silva criticou publicamente a desistência e afirmou que a decisão representaria uma manobra política para impedir o avanço de candidaturas do campo progressista.

A questão financeira

Outro ponto que entrou no debate foi o financiamento da campanha.

Segundo levantamento publicado pelo UOL, Salles havia recebido R$ 3,1 milhões em recursos públicos e declarado gastos de aproximadamente R$ 1,76 milhão até a desistência.

A renúncia à candidatura não implica, por si só, obrigação de devolver os valores já gastos, segundo especialista em direito eleitoral ouvido pelo veículo.

O dado acrescenta outra dimensão à discussão sobre a decisão tomada tão próximo da votação.

E agora?

Com a retirada, Salles declarou apoio a André do Prado e Guilherme Derrite.

Seu nome, porém, continuará aparecendo nas urnas eletrônicas, porque o sistema eleitoral já havia sido fechado quando a desistência foi formalizada. Os votos eventualmente atribuídos a Salles serão considerados nulos e não serão transferidos para outros candidatos.

O futuro político do ex-ministro também já começou a ser discutido.

Reportagens apontam especulações sobre uma possível participação de Salles em um eventual governo estadual de Tarcísio, incluindo a possibilidade de ocupar uma secretaria, embora não exista confirmação de que um cargo tenha sido negociado ou garantido.

Por enquanto, o fato concreto é outro:

Ricardo Salles entrou na disputa pelo Senado como candidato independente dentro da direita, passou meses confrontando nomes do próprio campo político e terminou a campanha abrindo mão da candidatura para apoiar justamente dois dos adversários que havia criticado.

A justificativa apresentada por Salles é a necessidade de unir os votos da direita.

A mudança de posição, entretanto, deverá continuar alimentando o debate sobre estratégia, coerência política e futuro eleitoral do ex-ministro.

A eleição termina nas urnas. A trajetória política de Salles, não.

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