Deputado estadual eleito com a segunda maior votação do Rio de Janeiro é investigado em suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis. Operação também mira agentes públicos e determina medidas contra 112 empresas.
A Polícia Federal prendeu, na manhã de quinta-feira (15), o deputado estadual eleito Márcio Canella, do União Brasil, e Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro. As prisões ocorreram durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro na região metropolitana fluminense.
Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, recebeu 197.178 votos nas eleições estaduais de 2026, alcançando a segunda maior votação entre os deputados estaduais eleitos no Rio de Janeiro. Agora, seu nome está no centro de uma investigação de grande dimensão financeira e com possíveis conexões entre empresários, agentes públicos e estruturas políticas.
Segundo a Polícia Federal, o grupo investigado movimentou mais de R$ 7,6 bilhões ao longo de seis anos, conforme informações de um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).
A cifra chama a atenção pela dimensão das movimentações financeiras. Entretanto, ela representa o volume atribuído ao conjunto investigado e não significa, por si só, que todo esse dinheiro tenha sido comprovadamente lavado ou que pertença a um único investigado.
REDE DE POSTOS SOB INVESTIGAÇÃO
A operação atingiu uma estrutura empresarial que, segundo a PF, teria sido utilizada para ocultar a origem de recursos ilícitos.
A Justiça determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas relacionadas à rede investigada. Desse total, 96 seriam postos de combustíveis.
A suspeita é de que empresas do setor tenham sido utilizadas para camuflar operações financeiras e dificultar o rastreamento do dinheiro. A investigação também apura possíveis crimes de organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.
A existência de uma rede empresarial extensa torna o caso especialmente relevante para as autoridades responsáveis por fiscalizar a origem dos recursos e identificar quem efetivamente controlava as empresas e se beneficiava das movimentações.
AGENTES PÚBLICOS ENTRE OS ALVOS
Além de Canella e Marcus Amim, foram presos os agentes da Polícia Civil Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como “Pablo Russo”, Giovanni Gaspar Fernandes e José Carlos Alves de Souza Júnior, além de Christiano Gaspar Fernandes, secretário municipal de Ordem Pública de Belford Roxo.
Ao todo, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão em sete municípios: Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.
De acordo com informações divulgadas pela CNN Brasil, a Polícia Federal atribui a Canella um possível papel de articulação política dentro da organização investigada. A apuração também examina a atuação de agentes da segurança pública e a suspeita de utilização de terceiros para ocultar os verdadeiros responsáveis por empresas do setor de combustíveis.
Essas são hipóteses investigativas que precisam ser demonstradas no curso do processo. A responsabilidade de cada envolvido deverá ser apurada individualmente.
O HISTÓRICO RECENTE DE CANELLA
A nova prisão ocorre meses depois de outro episódio envolvendo o político.
Em julho de 2026, Canella foi preso em flagrante após a Polícia Federal encontrar um fuzil em seu veículo durante uma fase anterior da Operação Unha e Carne. Na ocasião, ele afirmou que a arma pertencia ao policial militar responsável por sua segurança.
Posteriormente, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou que Canella respondesse àquele processo em liberdade, mediante medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, a entrega do passaporte e a suspensão do porte de arma.
O episódio anterior e a investigação atual são procedimentos distintos. A prisão de outubro está relacionada à suspeita de participação no esquema de lavagem de dinheiro investigado pela PF.
O QUE A OPERAÇÃO REVELA SOBRE A FISCALIZAÇÃO DO PODER PÚBLICO?
A Operação Unha e Carne coloca em evidência um problema que exige atenção permanente: a necessidade de impedir que estruturas empresariais sejam utilizadas para movimentar recursos de origem criminosa e que eventuais conexões com agentes públicos dificultem a fiscalização.
Quando uma investigação alcança políticos eleitos, integrantes das forças de segurança e empresas de grande porte, a sociedade tem direito a informações claras sobre os fatos apurados, os fundamentos das decisões judiciais e os resultados das medidas adotadas.
O desafio das autoridades é esclarecer a origem dos recursos, identificar os beneficiários das operações e demonstrar se houve participação individual de cada investigado. Também será necessário distinguir movimentações financeiras suspeitas de transações que possam ter explicação legítima.
A dimensão econômica do caso torna indispensável uma apuração rigorosa, acompanhada de transparência e respeito ao devido processo legal.
DEFESAS AGUARDAM ACESSO AOS AUTOS
A reportagem da CNN Brasil informou que a defesa de Marcus Amim aguardava acesso à decisão judicial para prestar esclarecimentos. Os advogados de Giovanni e Christiano Gaspar Fernandes também disseram não ter tido acesso aos autos e afirmaram que os dois ficaram surpresos com a prisão.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro declarou, por meio de sua corregedoria, que participa da operação em apoio à Polícia Federal e que não compactua com desvios de conduta, afirmando adotar medidas administrativas e disciplinares diante de indícios de irregularidades.
Até que as provas sejam examinadas judicialmente, as acusações devem ser tratadas como suspeitas, e não como culpa estabelecida.
INVESTIGAÇÃO TERÁ REPERCUSSÃO POLÍTICA E INSTITUCIONAL
A prisão de um deputado eleito com votação expressiva e de um ex-secretário de Polícia Civil amplia a repercussão da operação no Rio de Janeiro. O caso envolve não apenas a suspeita de lavagem de dinheiro, mas também possíveis relações entre interesses empresariais, agentes públicos e articulação política.
Os próximos passos deverão esclarecer a estrutura do suposto esquema, a origem dos valores movimentados e o grau de participação atribuído a cada investigado.
Mais do que o impacto imediato das prisões, o resultado relevante será a capacidade das instituições de produzir provas, responsabilizar quem tiver cometido crimes e preservar os direitos de quem ainda não foi condenado.
A sociedade precisa