COMO NASCEU A FAKE NEWS QUE TENTOU ASSOCIAR FLÁVIO BOLSONARO À RETIRADA DE NOSSA SENHORA APARECIDA

6 min de leitura

Boato colocou religião no centro da disputa eleitoral; candidato nega proposta, projeto citado é de 2007 e CNBB rejeita acusação de participação na divulgação

Uma polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida tomou conta das redes sociais e entrou de vez na campanha presidencial de 2026.

Nos últimos dias, publicações passaram a associar o candidato Flávio Bolsonaro a uma suposta proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

O problema para essa narrativa é que não há registro de uma proposta apresentada por Flávio Bolsonaro nesse sentido.

O projeto utilizado para sustentar a associação é de 2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli. A proposta pretendia alterar a legislação referente ao feriado de 12 de outubro e modificar a referência à santa na lei. O projeto acabou arquivado.

Mesmo assim, o conteúdo passou a circular nas redes sociais relacionando a proposta diretamente a Flávio.

Foi então que o candidato reagiu.

A RESPOSTA DE FLÁVIO

Na quinta-feira (24), Flávio Bolsonaro publicou um vídeo negando que pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

A campanha afirmou que a informação era falsa e que seus advogados avaliavam medidas junto à Justiça Eleitoral para identificar os responsáveis pela disseminação do conteúdo.

O episódio ganhou uma dimensão ainda maior porque a discussão ocorreu justamente em uma eleição na qual religião e política estão entre os temas presentes na disputa.

Uma informação capaz de associar um candidato a um suposto ataque à principal devoção católica brasileira poderia produzir forte repercussão entre eleitores religiosos.

DE ONDE VEIO A ASSOCIAÇÃO?

A reconstrução do episódio mostra uma sequência importante.

Primeiro, um debate televisivo mencionou uma suposta movimentação envolvendo a condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.

Depois, o assunto passou a circular nas redes sociais com uma associação direta a Flávio Bolsonaro.

O projeto de 2007 foi então recuperado para dar sustentação à narrativa.

O problema é que o autor daquele projeto não era Flávio Bolsonaro.

A proposta foi apresentada pelo então deputado Victório Galli e posteriormente arquivada.

Além disso, uma emissora responsável pela veiculação original publicou uma correção e pediu desculpas pela forma como a informação havia sido apresentada.

A POLÊMICA GANHA NOVO CAPÍTULO

No domingo (27), durante uma carreata em Goiânia, Flávio foi além da simples negativa.

O candidato afirmou que o PT estaria tentando levantar a informação havia dias e disse que a circulação do conteúdo teria contado com a ajuda de pessoas de dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB.

A acusação, porém, não veio acompanhada, naquele momento, de provas apresentadas publicamente.

Flávio afirmou que sua equipe teria identificado uma rede relacionada à disseminação do conteúdo e que pretendia buscar responsabilização nas esferas eleitoral e civil.

CNBB REAGE E NEGA ENVOLVIMENTO

A CNBB respondeu à acusação no mesmo domingo.

Em nota, a entidade afirmou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.

A instituição também negou integrar estruturas político-partidárias ou de candidaturas e afirmou que acusações sem apresentação de fatos e provas atingem injustamente a entidade.

Portanto, neste momento, existem duas versões claramente distintas:

De um lado, Flávio Bolsonaro afirma que houve uma articulação para espalhar a informação e acusa o PT de participação, mencionando ainda suposta ajuda de pessoas ligadas à CNBB.

De outro, a CNBB nega qualquer envolvimento.

A acusação contra integrantes da entidade permanece, portanto, como uma alegação de campanha, e não como um fato comprovado.

O QUE ESTAVA EM JOGO?

O episódio revela algo importante sobre a política nas redes sociais.

A narrativa não precisava necessariamente afirmar que Flávio havia apresentado pessoalmente um projeto.

Bastava criar uma associação entre o candidato, seu posicionamento religioso, setores evangélicos e uma proposta antiga sobre Nossa Senhora Aparecida.

Essa associação rapidamente colocou o candidato diante de uma situação politicamente delicada: ele precisou interromper a agenda eleitoral para negar uma proposta que dizia não existir.

E esse é talvez o aspecto mais relevante de toda a história.

Antes mesmo de qualquer decisão judicial ou investigação sobre a origem das publicações, o boato já havia produzido um efeito político: obrigou o candidato a responder publicamente à acusação.

A DISPUTA CHEGOU AO STF

A polêmica não ficou restrita às redes sociais.

Uma publicação do humorista Antonio Tabet sobre o episódio foi retirada por determinação do ministro André Mendonça, do TSE.

Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou a decisão e determinou o restabelecimento do conteúdo, argumentando que não havia segurança suficiente para justificar uma restrição tão ampla à liberdade de expressão.

O caso abriu uma segunda frente de disputa: até onde a Justiça Eleitoral pode interferir em publicações políticas e satíricas durante uma eleição?

UMA GUERRA DE NARRATIVAS

O episódio de Nossa Senhora Aparecida deixou de ser apenas uma discussão sobre religião.

Transformou-se em uma disputa sobre informação, desinformação, liberdade de expressão e responsabilidade eleitoral.

A pergunta central agora não é apenas quem publicou primeiro.

É preciso descobrir:

quem iniciou a associação entre Flávio Bolsonaro e o projeto de 2007?

Como essa informação se espalhou?

Quem produziu os primeiros conteúdos?

Houve coordenação entre diferentes perfis?

E, principalmente:

existem provas de participação de integrantes da CNBB, como afirmou Flávio, ou a acusação permanecerá apenas no campo político?

Até que essas perguntas sejam respondidas por evidências verificáveis, é necessário separar o que está documentado daquilo que foi alegado pelos envolvidos.

O que já está documentado é que o projeto citado nas publicações era de 2007, não de Flávio Bolsonaro; que o projeto foi arquivado; que Flávio negou defender a retirada do título de Padroeira; que a informação ganhou circulação nas redes; e que a CNBB negou qualquer participação na disseminação de notícias falsas.

A partir daí, começa a investigação que pode revelar se houve apenas uma onda espontânea de desinformação ou uma operação coordenada para atingir um candidato durante a campanha eleitoral.

Compartilhe como preferir

Copiar Link
WhatsApp
Facebook
Email