Boato colocou religião no centro da disputa eleitoral; candidato nega proposta, projeto citado é de 2007 e CNBB rejeita acusação de participação na divulgação
Uma polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida tomou conta das redes sociais e entrou de vez na campanha presidencial de 2026.
Nos últimos dias, publicações passaram a associar o candidato Flávio Bolsonaro a uma suposta proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
O problema para essa narrativa é que não há registro de uma proposta apresentada por Flávio Bolsonaro nesse sentido.
O projeto utilizado para sustentar a associação é de 2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli. A proposta pretendia alterar a legislação referente ao feriado de 12 de outubro e modificar a referência à santa na lei. O projeto acabou arquivado.
Mesmo assim, o conteúdo passou a circular nas redes sociais relacionando a proposta diretamente a Flávio.
Foi então que o candidato reagiu.
A RESPOSTA DE FLÁVIO
Na quinta-feira (24), Flávio Bolsonaro publicou um vídeo negando que pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A campanha afirmou que a informação era falsa e que seus advogados avaliavam medidas junto à Justiça Eleitoral para identificar os responsáveis pela disseminação do conteúdo.
O episódio ganhou uma dimensão ainda maior porque a discussão ocorreu justamente em uma eleição na qual religião e política estão entre os temas presentes na disputa.
Uma informação capaz de associar um candidato a um suposto ataque à principal devoção católica brasileira poderia produzir forte repercussão entre eleitores religiosos.
DE ONDE VEIO A ASSOCIAÇÃO?
A reconstrução do episódio mostra uma sequência importante.
Primeiro, um debate televisivo mencionou uma suposta movimentação envolvendo a condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
Depois, o assunto passou a circular nas redes sociais com uma associação direta a Flávio Bolsonaro.
O projeto de 2007 foi então recuperado para dar sustentação à narrativa.
O problema é que o autor daquele projeto não era Flávio Bolsonaro.
A proposta foi apresentada pelo então deputado Victório Galli e posteriormente arquivada.
Além disso, uma emissora responsável pela veiculação original publicou uma correção e pediu desculpas pela forma como a informação havia sido apresentada.
A POLÊMICA GANHA NOVO CAPÍTULO
No domingo (27), durante uma carreata em Goiânia, Flávio foi além da simples negativa.
O candidato afirmou que o PT estaria tentando levantar a informação havia dias e disse que a circulação do conteúdo teria contado com a ajuda de pessoas de dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB.
A acusação, porém, não veio acompanhada, naquele momento, de provas apresentadas publicamente.
Flávio afirmou que sua equipe teria identificado uma rede relacionada à disseminação do conteúdo e que pretendia buscar responsabilização nas esferas eleitoral e civil.
CNBB REAGE E NEGA ENVOLVIMENTO
A CNBB respondeu à acusação no mesmo domingo.
Em nota, a entidade afirmou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.
A instituição também negou integrar estruturas político-partidárias ou de candidaturas e afirmou que acusações sem apresentação de fatos e provas atingem injustamente a entidade.
Portanto, neste momento, existem duas versões claramente distintas:
De um lado, Flávio Bolsonaro afirma que houve uma articulação para espalhar a informação e acusa o PT de participação, mencionando ainda suposta ajuda de pessoas ligadas à CNBB.
De outro, a CNBB nega qualquer envolvimento.
A acusação contra integrantes da entidade permanece, portanto, como uma alegação de campanha, e não como um fato comprovado.
O QUE ESTAVA EM JOGO?
O episódio revela algo importante sobre a política nas redes sociais.
A narrativa não precisava necessariamente afirmar que Flávio havia apresentado pessoalmente um projeto.
Bastava criar uma associação entre o candidato, seu posicionamento religioso, setores evangélicos e uma proposta antiga sobre Nossa Senhora Aparecida.
Essa associação rapidamente colocou o candidato diante de uma situação politicamente delicada: ele precisou interromper a agenda eleitoral para negar uma proposta que dizia não existir.
E esse é talvez o aspecto mais relevante de toda a história.
Antes mesmo de qualquer decisão judicial ou investigação sobre a origem das publicações, o boato já havia produzido um efeito político: obrigou o candidato a responder publicamente à acusação.
A DISPUTA CHEGOU AO STF
A polêmica não ficou restrita às redes sociais.
Uma publicação do humorista Antonio Tabet sobre o episódio foi retirada por determinação do ministro André Mendonça, do TSE.
Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou a decisão e determinou o restabelecimento do conteúdo, argumentando que não havia segurança suficiente para justificar uma restrição tão ampla à liberdade de expressão.
O caso abriu uma segunda frente de disputa: até onde a Justiça Eleitoral pode interferir em publicações políticas e satíricas durante uma eleição?
UMA GUERRA DE NARRATIVAS
O episódio de Nossa Senhora Aparecida deixou de ser apenas uma discussão sobre religião.
Transformou-se em uma disputa sobre informação, desinformação, liberdade de expressão e responsabilidade eleitoral.
A pergunta central agora não é apenas quem publicou primeiro.
É preciso descobrir:
quem iniciou a associação entre Flávio Bolsonaro e o projeto de 2007?
Como essa informação se espalhou?
Quem produziu os primeiros conteúdos?
Houve coordenação entre diferentes perfis?
E, principalmente:
existem provas de participação de integrantes da CNBB, como afirmou Flávio, ou a acusação permanecerá apenas no campo político?
Até que essas perguntas sejam respondidas por evidências verificáveis, é necessário separar o que está documentado daquilo que foi alegado pelos envolvidos.
O que já está documentado é que o projeto citado nas publicações era de 2007, não de Flávio Bolsonaro; que o projeto foi arquivado; que Flávio negou defender a retirada do título de Padroeira; que a informação ganhou circulação nas redes; e que a CNBB negou qualquer participação na disseminação de notícias falsas.
A partir daí, começa a investigação que pode revelar se houve apenas uma onda espontânea de desinformação ou uma operação coordenada para atingir um candidato durante a campanha eleitoral.