Documento encontrado pela Polícia Federal registra relato de Karina Gama sobre supostas abordagens e pressão para colaborar com as investigações; produtora afirma que não teria informações para oferecer em uma delação
A investigação da Polícia Federal sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou um novo capítulo após a localização de um documento no qual a produtora Karina Ferreira da Gama relata ter sofrido pressões para fazer uma delação premiada.
Segundo reportagem publicada pela Veja, o documento registra que Karina teria sido abordada por pessoas que se apresentaram como oficiais de Justiça e também recebeu uma sugestão para colaborar com as autoridades por meio de um acordo de delação.
A produtora, porém, sustenta que não teria informações relevantes para apresentar aos investigadores e afirma que sua atuação se limitou à produção do longa-metragem.
Produtora afirma que sofreu ameaças
De acordo com o relato apresentado às autoridades, Karina teria ficado preocupada com as abordagens recebidas durante o avanço das investigações.
A produtora afirmou que pessoas teriam tentado convencê-la a fornecer informações contra outros envolvidos no caso. Ela também teria relatado uma abordagem feita por um pastor que, segundo seu depoimento, sugeriu a possibilidade de um acordo de colaboração premiada.
Karina nega ter conhecimento de irregularidades e afirma que apenas executou o trabalho de produção para o filme.
A existência do documento, no entanto, passou a integrar o conjunto de informações analisadas pela Polícia Federal.
Operação da PF aumenta pressão sobre a produtora
O relato veio à tona justamente quando a investigação sobre Dark Horse ganhou uma nova dimensão.
Nesta quinta-feira (10), a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A operação investiga suspeitas relacionadas ao uso irregular de emendas parlamentares, contratos públicos e movimentações financeiras que teriam relação com a produção do filme.
Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados e no Distrito Federal, segundo informações divulgadas pela imprensa. Entre os alvos está a própria Karina Gama.
O deputado federal Mario Frias (PL-SP) também foi alvo da operação. O parlamentar participou da produção do filme e é investigado por destinação de emendas parlamentares para entidades relacionadas à produtora.
PF investiga dinheiro público e financiamento do filme
A investigação procura esclarecer a origem e o destino de recursos utilizados na produção de Dark Horse.
Um dos pontos analisados envolve emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Gama.
Segundo a investigação, parte desses recursos pode ter sido desviada ou utilizada de maneira incompatível com a finalidade originalmente declarada.
A PF também analisa contratos envolvendo entidades ligadas à produtora e empresas que receberam recursos públicos.
Em um dos casos, investigadores identificaram uma emenda de R$ 1 milhão destinada por Mario Frias ao ICB para um projeto que, segundo a investigação, não teria sido executado conforme previsto.
Relação com Daniel Vorcaro
Outro eixo da investigação envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
A Polícia Federal investiga repasses milionários ligados ao financiamento de Dark Horse. Informações obtidas nas investigações apontam que recursos de Vorcaro chegaram à estrutura utilizada para financiar o longa.
A apuração também identificou transferências internacionais para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, apontado como um dos veículos utilizados no financiamento da produção.
Segundo informações divulgadas nesta semana, o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, ligado a Vorcaro, fechou acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República e relatou repasses que somaram aproximadamente US$ 12,3 milhões para o fundo relacionado ao filme.
Investigação vai além do filme
O caso não está restrito ao financiamento de Dark Horse.
A Polícia Federal também investiga contratos públicos envolvendo entidades ligadas a Karina Gama, incluindo um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões relacionado à instalação de pontos de internet gratuita em comunidades de São Paulo.
Os investigadores analisam se recursos destinados a esses contratos foram utilizados de maneira irregular ou desviados para outras finalidades.
A apuração também identificou movimentações financeiras consideradas atípicas entre empresas e pessoas ligadas ao grupo investigado.
Karina nega irregularidades
A produtora afirma que está colaborando com as autoridades e nega ter participado de qualquer esquema criminoso.
Segundo relatos divulgados pela imprensa, Karina sustenta que recebeu pelos serviços de produção do filme e que não participou diretamente das negociações relacionadas aos financiadores do projeto.
A defesa também apresentou anteriormente à PF milhares de documentos com contratos, notas fiscais e comprovantes bancários relacionados aos gastos da produção, numa tentativa de demonstrar a regularidade das despesas.
Pressão por delação vira novo elemento do caso
O documento relatando as supostas pressões para uma delação acrescenta uma nova camada à investigação.
De um lado, a Polícia Federal procura identificar a origem dos recursos que financiaram o filme e verificar se houve utilização irregular de dinheiro público.
De outro, a produtora afirma que vem colaborando com as autoridades e que não possui informações que justifiquem uma colaboração premiada.
Até o momento, o relato de Karina sobre as supostas pressões não significa que tenha sido comprovada qualquer irregularidade por parte das pessoas mencionadas por ela. Da mesma forma, as suspeitas investigadas pela PF ainda dependem da conclusão das apurações e de eventual comprovação perante a Justiça.
O caso, entretanto, ganhou dimensão nacional após a Operação Make Up e deverá continuar produzindo novos desdobramentos.
A investigação agora tenta responder a uma série de perguntas: qual foi a origem de todo o dinheiro utilizado em “Dark Horse”, como os recursos circularam entre empresas e entidades e se houve utilização irregular de verbas públicas para financiar a produção?
As respostas deverão surgir a partir da análise do material apreendido pela Polícia Federal e dos depoimentos dos envolvidos.