MENSAGENS DE VORCARO E SÓCIO COLOCAM CONTRATO DE R$ 350 MILHÕES DA COP30 SOB NOVO ESCRUTÍNIO

8 min de leitura

Conversas extraídas pela PF mostram empresário Marcelo Cohen falando em “solução” para a COP30 e citando Lula e Rui Costa antes da contratação da empresa que intermediou os navios

Uma troca de mensagens extraída pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acrescentou um novo elemento à história da contratação de navios para hospedagem durante a COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025.

As mensagens foram trocadas em 27 de fevereiro de 2025 entre Vorcaro e o empresário Marcelo Cohen, dono da Qualitours, empresa que posteriormente foi contratada pelo governo federal, por meio da Embratur, para viabilizar a operação dos navios utilizados como hospedagem durante a conferência.

Segundo as mensagens divulgadas pelo Metrópoles, Cohen escreveu a Vorcaro que o governo estaria “desesperado por conta da COP30” e afirmou que os dois teriam “a solução”.

Na sequência, segundo a reportagem, Cohen escreveu:

“Você vira o salvador da pátria. Estão desesperados Lula e Rui Costa.”

Vorcaro respondeu: “Claro”.

A conversa, por si só, não demonstra que Lula ou Rui Costa tenham participado daquela negociação, nem comprova irregularidade na contratação. Mas a existência do diálogo antes da contratação acrescenta uma nova questão à história da operação e levanta dúvidas sobre o que Cohen pretendia dizer ao mencionar uma “solução” e qual seria exatamente o papel imaginado para Vorcaro.

O QUE ACONTECEU DEPOIS

Meses depois da conversa, a Qualitours passou a fazer parte da estrutura responsável pela hospedagem da COP30.

A empresa foi contratada pela Embratur, que recebeu da estrutura responsável pela organização da conferência a missão de viabilizar a hospedagem em navios diante da insuficiência de hotéis em Belém.

A Qualitours, por sua vez, contratou as empresas Costa Cruzeiros e MSC Cruzeiros para disponibilizar as embarcações.

Documentos oficiais citados anteriormente pela imprensa apontam que o custo total da operação chegou a R$ 350.240.506,46.

A operação envolveu, entre outros, os navios MSC Seaview e Costa Diadema, que foram utilizados para ampliar a capacidade de hospedagem durante a conferência.

QUEM É MARCELO COHEN

O nome de Marcelo Cohen ganhou relevância porque sua relação empresarial com Vorcaro antecede o contrato da COP30.

Cohen é empresário do setor de turismo e criou a BeFly, holding que reúne diferentes empresas do segmento.

Ele também é apontado como sócio de Vorcaro no empreendimento hoteleiro Botanique, em Campos do Jordão.

A ligação empresarial entre Cohen e o universo do Banco Master foi objeto de reportagens anteriores. Segundo informações publicadas pela imprensa, fundos ligados ao Master participaram do financiamento de operações envolvendo empresas posteriormente integradas à BeFly.

Esse histórico torna a mensagem de fevereiro de 2025 particularmente relevante para entender a sequência dos acontecimentos.

A PERGUNTA CENTRAL: O QUE ERA A “SOLUÇÃO”?

É justamente neste ponto que está o principal elemento jornalístico revelado pelas mensagens.

Cohen escreveu a Vorcaro que o governo estaria “desesperado” por causa da COP30 e que “nós temos a solução”.

Mas a conversa divulgada não esclarece qual era exatamente essa solução.

Também não fica demonstrado, apenas pelas mensagens apresentadas, que Vorcaro tenha participado da contratação dos navios ou que o Banco Master tenha obtido qualquer benefício com o contrato.

A própria Qualitours afirmou que Daniel Vorcaro e o Banco Master não participaram da contratação nem da execução dos serviços.

Por isso, a questão que permanece é objetiva:

o que Cohen pretendia oferecer a Vorcaro em fevereiro de 2025 e qual relação, se alguma, essa conversa tinha com a posterior operação dos navios?

GOVERNO DIZ QUE CONTRATAÇÃO FOI REGULAR

O governo federal já apresentou sua versão sobre a contratação.

A Embratur afirmou que a Qualitours foi escolhida dentro dos procedimentos previstos e que apresentou a documentação exigida para demonstrar sua capacidade de execução.

A agência também afirmou que não houve participação do Banco Master no processo.

Segundo a Embratur, a estrutura financeira da operação contou com garantia do BTG Pactual, por meio de carta-fiança.

Outro ponto importante: segundo a versão apresentada pelo governo, o contrato foi submetido a análise do Tribunal de Contas da União, que considerou regular a contratação e avaliou que o modelo era economicamente mais vantajoso do que o fretamento direto dos navios.

Portanto, a existência das mensagens não equivale, por si só, a uma conclusão de irregularidade.

O CONTRATO DE R$ 350 MILHÕES

A dimensão financeira ajuda a explicar por que a nova revelação chama atenção.

A operação consumiu mais de R$ 350 milhões dos cofres públicos para disponibilizar hospedagem durante a COP30.

O governo justificou a utilização dos navios pela necessidade de ampliar rapidamente a capacidade de acomodação de Belém, que enfrentava forte pressão sobre sua rede hoteleira durante a conferência.

A contratação já havia sido objeto de questionamentos públicos antes da divulgação das mensagens.

Em abril de 2026, reportagens mostraram que a Qualitours havia sido escolhida para intermediar a operação e que o contrato alcançara R$ 350,2 milhões.

UM DETALHE QUE AUMENTA A CURIOSIDADE

Outro elemento chama atenção na cronologia.

Em fevereiro de 2025, antes da contratação, Cohen fala com Vorcaro sobre uma suposta “solução” para a falta de hospedagem da COP30.

Meses depois, a Qualitours aparece na operação oficial.

A sequência temporal não prova uma relação causal entre os dois acontecimentos, mas torna a conversa relevante para compreender como a solução de hospedagem foi estruturada.

É exatamente essa conexão que precisa ser esclarecida pelas autoridades, caso existam elementos adicionais nas mensagens ou em outros documentos apreendidos pela PF.

COHEN TAMBÉM FALOU SOBRE A OPERAÇÃO PUBLICAMENTE

A própria comunicação pública da Qualitours ajuda a dimensionar o projeto.

Em publicação sobre a COP30, Marcelo Cohen afirmou que a empresa assumiu o desafio de criar uma solução para a escassez de acomodações em Belém e informou que os dois navios poderiam receber até 9 mil pessoas.

Em julho de 2025, a empresa também informou que atuaria na comercialização das cabines dos navios durante a conferência.

Ou seja, a Qualitours efetivamente desempenhou papel relevante na estrutura de hospedagem da COP30.

A questão agora é determinar o que existia por trás da conversa de fevereiro de 2025 e se aquela “solução” mencionada por Cohen era simplesmente uma proposta empresarial para resolver o problema de hospedagem ou se envolvia algum outro tipo de articulação.

O QUE DIZ O GOVERNO LULA

A Secretaria de Comunicação da Presidência negou que Lula tenha participado de qualquer negociação relacionada à contratação dos navios.

Segundo a posição divulgada pelo governo, não houve reunião do presidente ou do então ministro da Casa Civil, Rui Costa, com Marcelo Cohen para tratar do assunto.

O governo também afirmou que a contratação foi conduzida pelas instâncias responsáveis, seguindo critérios técnicos e os procedimentos previstos para a organização da COP30.

A declaração é importante porque as mensagens divulgadas atribuem diretamente a Lula e Rui Costa um suposto estado de preocupação com a falta de hospedagem.

Essa afirmação, entretanto, aparece na mensagem de Cohen e não foi apresentada como declaração direta de Lula ou Rui Costa.

O QUE AINDA PRECISA SER ESCLARECIDO

A nova revelação coloca algumas perguntas objetivas sobre a mesa:

Qual era exatamente a “solução” mencionada por Marcelo Cohen?

Por que Daniel Vorcaro foi procurado para tratar do assunto?

Havia alguma participação prevista para o Banco Master?

O que foi discutido depois da mensagem de 27 de fevereiro de 2025?

Houve outras conversas entre Cohen, Vorcaro e integrantes do governo sobre a hospedagem da COP30?

E, principalmente:

a “solução” mencionada na conversa tinha relação com a posterior contratação da Qualitours?

As mensagens divulgadas até agora não respondem a todas essas perguntas.

UM NOVO CAPÍTULO NA HISTÓRIA DO BANCO MASTER

O episódio também se encaixa em uma investigação mais ampla sobre as relações empresariais e financeiras envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas de seu círculo de negócios.

A novidade é que uma conversa relacionada a um contrato público de grande valor aparece agora entre mensagens extraídas pela Polícia Federal.

Isso não significa que o contrato seja irregular — especialmente porque há manifestações oficiais sustentando a regularidade da contratação e referência a análise do TCU.

Mas significa que a cronologia e o conteúdo das mensagens passaram a fazer parte do contexto que precisa ser examinado.

A COP30 terminou em novembro de 2025.

Mais de um ano depois, a discussão sobre os bastidores da contratação dos navios ganha um novo elemento: uma mensagem enviada meses antes do contrato em que um dos empresários envolvidos fala em uma “solução” e cita diretamente Lula e Rui Costa.

Agora, o ponto central é descobrir o que estava por trás daquela solução.

THE ARENA TIMES — O MUNDO É A ARENA.

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