Ministro afirma que documento sobre supostas mensagens com Daniel Vorcaro apresenta irregularidades e acusa tentativa de interferência nas eleições de 2026
Brasília — O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), elevou o tom da crise envolvendo as investigações sobre o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro. Em manifestação encaminhada ao presidente da Corte, Edson Fachin, o ministro afirmou que um relatório da Polícia Federal (PF) que cita supostas comunicações entre ele e Vorcaro pode ter contado com o auxílio de um órgão estrangeiro.
A afirmação consta de um ofício enviado por Moraes na segunda-feira (14). No documento, o ministro classificou o relatório como “nulo e imprestável” e levantou suspeitas sobre a origem e a forma como o material foi produzido.
Segundo Moraes, a eventual participação de uma estrutura estrangeira poderia configurar uma tentativa de interferência externa no processo eleitoral brasileiro de 2026.
Moraes questiona origem do relatório
Um dos principais argumentos apresentados pelo ministro envolve a chamada cadeia de custódia dos dados, procedimento utilizado para preservar a integridade de evidências digitais desde sua obtenção até a análise.
Moraes afirma que os metadados do arquivo indicariam que o relatório teria sido aberto e finalizado no mesmo dia em computadores da Polícia Federal. Na avaliação apresentada pelo ministro, esse registro levantaria a possibilidade de que o conteúdo tenha sido produzido anteriormente fora da PF e posteriormente inserido nos sistemas da instituição.
A hipótese, caso comprovada, poderia provocar questionamentos sobre a origem, autenticidade e integridade do documento.
Até o momento, porém, a alegação de participação de um órgão estrangeiro é apresentada por Moraes como uma suspeita, e não como um fato definitivamente comprovado.
Ministro fala em interferência nas eleições
Moraes relacionou o episódio diretamente ao cenário político brasileiro. Na manifestação enviada a Fachin, afirmou que a produção do relatório poderia fazer parte de uma tentativa de atingir sua atuação como relator de processos relacionados aos atos antidemocráticos posteriores às eleições de 2022.
O ministro também classificou o episódio como uma possível tentativa de interferência externa nas eleições de 2026.
A acusação acrescenta uma dimensão eleitoral à crise que já envolve integrantes do Supremo, a Polícia Federal e as investigações relacionadas ao Banco Master.
Críticas ao conteúdo do documento
Além de questionar a origem do relatório, Moraes criticou o conteúdo das informações reunidas pela PF.
Segundo o ministro, o documento apresentaria “ilações”, informações falsas e conclusões que não encontrariam respaldo suficiente nos elementos analisados. Ele também sustenta que fragmentos de mensagens teriam sido selecionados de maneira subjetiva.
Na avaliação de Moraes, o relatório não apresentaria elementos capazes de demonstrar a existência de crime cometido por ele.
Crise interna no STF
O episódio ocorre em meio a uma crescente tensão dentro do próprio Supremo. O ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao caso, tornou públicos documentos que envolvem comunicações atribuídas a Moraes e Daniel Vorcaro.
A divulgação dos materiais provocou reação de Moraes e aprofundou o conflito entre os dois ministros.
O caso também envolve questionamentos sobre decisões relacionadas à Polícia Federal e levou Fachin, presidente do STF, a atuar para administrar os desdobramentos da crise.
A Corte deverá analisar o caso em uma sessão extraordinária nesta terça-feira (15).
Disputa que ultrapassa o caso Master
As acusações feitas por Moraes colocam novas questões sobre a condução das investigações e sobre a origem das evidências utilizadas no processo.
Se a suspeita de participação externa for posteriormente confirmada por elementos independentes, o episódio poderá ganhar uma dimensão institucional ainda maior. Caso não seja confirmada, as alegações deverão permanecer no centro do debate sobre a validade e a cadeia de custódia do relatório.
Por enquanto, não há comprovação apresentada na manifestação de Moraes de que um órgão estrangeiro tenha efetivamente produzido ou auxiliado na elaboração do documento.
O que existe é uma grave suspeita levantada pelo próprio ministro, que agora deverá ser confrontada com os dados técnicos, os procedimentos adotados pela Polícia Federal e os demais elementos da investigação.
A sessão desta terça-feira poderá ser decisiva para determinar os próximos passos de uma crise que já deixou de envolver apenas uma disputa entre ministros e passou a colocar em discussão a atuação da PF, a integridade das provas digitais e os limites institucionais do próprio Supremo.