Pequim acompanha declarações do candidato do PL e demonstra atenção especial a Brics, minerais estratégicos, inteligência artificial e investimentos chineses no país
A China passou a acompanhar com atenção as declarações e posições de Flávio Bolsonaro (PL), diante da possibilidade de uma eventual mudança de orientação na política externa brasileira. Segundo fontes ouvidas pela CNN Brasil em Pequim, o governo chinês avalia como poderia ser a relação com Brasília caso o candidato de oposição chegasse à Presidência da República.
De acordo com a apuração, existe preocupação em Pequim com uma eventual aproximação mais acentuada do Brasil com os Estados Unidos e com uma política considerada mais dura em relação à China. Ao mesmo tempo, interlocutores chineses avaliam Flávio Bolsonaro como potencialmente mais pragmático e moderado em relação à China do que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A cautela chinesa ocorre em um momento no qual a relação entre Brasília e Pequim ultrapassa o comércio de commodities e envolve investimentos industriais, infraestrutura, tecnologia e setores considerados estratégicos.
Comércio continua sendo um ponto de estabilidade
Apesar das preocupações diplomáticas, as fontes citadas pela CNN avaliam que uma eventual mudança de orientação política em Brasília não necessariamente provocaria uma ruptura no comércio entre os dois países.
A razão está no peso que a China adquiriu na economia brasileira. O país asiático é o principal destino das exportações brasileiras e tem participação relevante na compra de soja, petróleo, minério de ferro e carnes.
Dados do governo brasileiro mostram que a China respondeu por 28% das exportações brasileiras em 2024, consolidando-se como o principal parceiro comercial do país. A pauta, entretanto, permanece concentrada em commodities.
No agronegócio, a dependência também é significativa. Em 2025, a China comprou US$ 55,3 bilhões em produtos agropecuários brasileiros, equivalentes a 32,7% das exportações do setor.
Esse nível de integração cria interesses econômicos de longo prazo que vão além das diferenças políticas entre governos.
Minerais críticos entram no centro da disputa
Um dos temas que mais chamam a atenção de Pequim é o acesso a minerais considerados estratégicos para a indústria e para as novas tecnologias.
A questão ganhou dimensão geopolítica depois que os Estados Unidos pressionaram o Brasil, durante negociações comerciais em 2026, em relação à venda de ativos de níquel da Anglo American para a chinesa MMG. Segundo a apuração da CNN reproduzida na matéria, Washington também defendeu que transferências de controle de jazidas para economias consideradas “não de mercado” fossem previamente comunicadas aos Estados Unidos.
O episódio mostra como a disputa econômica entre Washington e Pequim pode atingir diretamente interesses brasileiros.
Para o Brasil, a questão coloca sobre a mesa um desafio diplomático: manter relações comerciais e atrair investimentos de diferentes potências sem transformar setores estratégicos da economia em pontos permanentes de confronto internacional.
Inteligência artificial amplia a dimensão estratégica
A inteligência artificial é outro setor observado pela China.
O governo brasileiro aderiu à Waico, organização internacional para cooperação em inteligência artificial lançada pelo presidente chinês Xi Jinping. A iniciativa defende, entre outros pontos, o compartilhamento de modelos abertos de inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos articulam iniciativas próprias para garantir cadeias de fornecimento consideradas estratégicas para a tecnologia.
Nesse cenário, decisões brasileiras sobre infraestrutura digital, dados, semicondutores, inteligência artificial e telecomunicações podem ganhar peso geopolítico nos próximos anos.
Brics também está no radar de Pequim
Outro ponto sensível é o futuro do Brasil no Brics.
A China considera relevante a permanência brasileira no agrupamento, especialmente porque Xi Jinping deverá exercer a presidência do bloco em 2027. Já o programa de governo de Flávio Bolsonaro, segundo a matéria da CNN, prevê a retomada do processo de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas não menciona o Brics.
A ausência de uma referência ao bloco, por si só, não permite concluir qual seria a política de um eventual governo Flávio Bolsonaro em relação ao Brics. Mas o tema tende a ser observado com atenção por Pequim, justamente porque o grupo ocupa espaço importante na estratégia internacional chinesa.
Investimentos chineses tornam relação ainda mais complexa
O relacionamento entre Brasil e China também ganhou uma dimensão industrial nos últimos anos.
Entre os investimentos e projetos citados na reportagem estão a fábrica da BYD na Bahia, os planos da GWM no Espírito Santo, a atuação da CRRC no setor ferroviário, o megadata center da ByteDance no Ceará e projetos ligados às empresas chinesas de tecnologia e serviços.
Esses investimentos ajudam a explicar por que Pequim demonstra interesse não apenas nas relações comerciais, mas também na estabilidade política e diplomática do Brasil.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços também registra a forte integração comercial entre os dois países. No período de janeiro a agosto de 2026, o Brasil importou US$ 51,56 bilhões em produtos chineses, representando 26,4% de todas as importações brasileiras no período.
Uma relação que vai além de governos
A leitura apresentada pelas fontes ouvidas pela CNN é que Pequim pretende adotar cautela diante do cenário eleitoral brasileiro e evitar envolvimento direto nas campanhas.
O atual embaixador chinês no Brasil, Zhu Qingqiao, segundo a reportagem, deverá manter uma postura discreta para evitar interpretações de apoio a qualquer candidato.
O cenário revela uma característica importante da relação Brasil–China: independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto, os dois países possuem interesses econômicos relevantes e uma agenda bilateral extensa.
A eventual chegada de um governo de orientação diferente, portanto, poderia produzir mudanças na diplomacia brasileira, mas não apagaria automaticamente os vínculos construídos ao longo de décadas.
Para Pequim, o desafio será acompanhar essas mudanças sem comprometer interesses comerciais e investimentos já estabelecidos. Para Brasília, a questão será administrar a relação simultaneamente com China e Estados Unidos em um ambiente internacional marcado por crescente disputa tecnológica, comercial e estratégica.