ONU enfrenta crise financeira e política enquanto Trump reduz apoio dos EUA ao multilateralismo

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81ª Assembleia Geral começa sob pressão: organização enfrenta dificuldades orçamentárias, impasses no Conselho de Segurança e redução do apoio americano

A Organização das Nações Unidas inicia sua 81ª Assembleia Geral, em Nova York, diante de uma combinação de dificuldades financeiras, impasses diplomáticos e questionamentos sobre a capacidade do sistema multilateral de responder às principais crises internacionais.

Com 193 países-membros, a ONU continua sendo o principal fórum global para negociações diplomáticas. Ao mesmo tempo, sua capacidade de produzir decisões concretas é limitada pelo sistema de votação do Conselho de Segurança, onde Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido possuem poder de veto.

Nesse cenário, a relação com os Estados Unidos ocupa posição central.

Trump reduz participação americana

O governo de Donald Trump adotou uma política de redução da participação dos Estados Unidos em organismos internacionais e anunciou a retirada do país de dezenas de entidades ligadas ao sistema das Nações Unidas.

Washington também reduziu seu apoio financeiro à organização, aumentando a pressão sobre o orçamento da ONU.

A situação financeira chegou a preocupar diretamente o secretário-geral António Guterres, que alertou durante o ano para o risco de dificuldades severas no funcionamento da organização.

Segundo os dados apresentados pelo g1, os Estados Unidos efetuaram recentemente um pagamento de US$ 725 milhões, mas ainda mantêm uma dívida de aproximadamente US$ 1,312 bilhão com o orçamento das Nações Unidas.

A redução dos recursos também teve reflexos sobre a estrutura da organização. O quadro de funcionários foi reduzido em cerca de 19%, enquanto operações humanitárias e missões de paz passaram por cortes.

Crise financeira atinge missões de paz

As consequências ultrapassam os escritórios administrativos da ONU.

A redução de recursos afeta diretamente programas humanitários e operações de manutenção da paz, que dependem de contribuições dos países-membros.

Segundo os dados citados na reportagem original, aproximadamente 13 mil militares foram repatriados em razão das limitações orçamentárias.

O problema expõe uma das principais contradições enfrentadas atualmente pela organização: a ONU recebe novas demandas justamente quando seus principais financiadores enfrentam disputas sobre quanto estão dispostos a contribuir para sua manutenção.

Aliados buscam fortalecer o multilateralismo

A redução do protagonismo americano também estimula outras potências e parceiros tradicionais de Washington a buscar novas formas de cooperação.

Às vésperas da Assembleia Geral, Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia anunciaram uma iniciativa chamada Parceiros pelo Multilateralismo (P4M).

A proposta busca aproximar países interessados em defender e reformar instituições internacionais, incluindo a própria ONU.

Os governos envolvidos defendem a necessidade de atualizar o sistema multilateral sem abandonar princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas, como soberania dos Estados, integridade territorial, solução pacífica de conflitos, direitos humanos e respeito ao direito internacional.

A iniciativa representa uma tentativa de responder a uma questão que ganhou força nos últimos anos: como preservar instituições criadas no pós-Segunda Guerra Mundial diante de uma realidade econômica, militar e política completamente diferente daquela existente quando foram estabelecidas.

O problema vai além de Trump

A crise da ONU, entretanto, não pode ser explicada apenas pela política do governo americano.

A organização enfrenta há décadas críticas relacionadas à burocracia, à lentidão nas decisões e à dificuldade de agir diante de guerras nas quais os interesses das grandes potências entram em choque.

O principal exemplo está no Conselho de Segurança.

Os cinco membros permanentes possuem poder de veto, o que significa que uma única potência pode impedir a aprovação de determinadas decisões.

O mecanismo foi criado para evitar que grandes potências fossem colocadas em posição de confronto direto dentro da organização, mas também se tornou um dos principais obstáculos para decisões rápidas em crises internacionais.

Sucessão de Guterres aumenta incerteza

Outro tema importante da Assembleia Geral será a escolha do sucessor de António Guterres.

O português encerra seu segundo mandato em dezembro, depois de dez anos à frente da organização.

O processo de escolha ocorre em meio a dificuldades para construir consenso entre os principais integrantes do Conselho de Segurança.

Três rodadas informais de consultas não produziram, até o momento, um nome consensual.

O futuro secretário-geral dependerá, na prática, da capacidade de obter apoio suficiente entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, antes da aprovação formal pela Assembleia Geral.

A disputa pela sucessão, portanto, ocorre paralelamente ao debate sobre o próprio futuro da organização.

Uma ONU pressionada em várias frentes

A Assembleia Geral de 2026 começa, assim, em um momento de forte pressão sobre o sistema multilateral.

De um lado, a organização precisa lidar com guerras, crises humanitárias e disputas entre grandes potências. De outro, enfrenta limitações financeiras e questionamentos sobre sua estrutura de tomada de decisões.

A redução do apoio americano acrescenta uma nova variável a esse cenário.

Ao mesmo tempo, a formação do P4M mostra que outros países e blocos pretendem ocupar espaço no debate sobre o futuro da cooperação internacional.

O resultado dessa disputa poderá definir não apenas o próximo ciclo da ONU, mas também o formato do multilateralismo nos próximos anos.

O desafio de reconstruir confiança

A questão central que chega à 81ª Assembleia Geral não é apenas quanto dinheiro a ONU terá para funcionar ou qual país ocupará a Secretaria-Geral.

O debate é mais amplo: qual será o papel das instituições multilaterais em um mundo no qual as grandes potências estão cada vez mais dispostas a defender seus interesses de forma unilateral?

A ONU continua reunindo praticamente toda a comunidade internacional em torno de uma mesma mesa. Mas sua capacidade de transformar essa representação em decisões efetivas dependerá da disposição dos países-membros de financiar a organização, respeitar seus mecanismos e aceitar reformas que reflitam o equilíbrio de poder do século XXI.

A Assembleia Geral de 2026 começa justamente com essa contradição: a ONU continua sendo indispensável como fórum global, mas sua autoridade e capacidade de ação estão sob pressão.

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