MORAES E GILMAR MANDAM QUATRO SINAIS AO BOLSONARISMO APÓS O PRIMEIRO TURNO

7 min de leitura

PROGRESSÃO DE DÉBORA DO BATOM, POSSÍVEL VISITA DE FLÁVIO A JAIR BOLSONARO E DOIS ARQUIVAMENTOS EM CASOS DE GRANDE REPERCUSSÃO MUDAM O TOM DO STF EM APENAS 48 HORAS

Em apenas 48 horas após o resultado do primeiro turno das eleições, quatro decisões envolvendo Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes chamaram a atenção do campo político ligado ao bolsonarismo.

Isoladamente, cada decisão possui uma justificativa jurídica própria. Juntas, porém, elas passaram a ser interpretadas politicamente como possíveis sinais de uma mudança de tom do Supremo Tribunal Federal diante de um cenário eleitoral completamente diferente daquele observado durante o início da campanha.

Não se trata de afirmar que houve um acordo ou uma mudança institucional do STF. Não há, nas decisões, qualquer declaração oficial nesse sentido.

Mas os acontecimentos são suficientemente relevantes para alimentar uma pergunta nos bastidores de Brasília:

O Supremo está sinalizando uma nova postura diante do bolsonarismo depois do primeiro turno?

1. DÉBORA DO BATOM AVANÇA PARA O SEMIABERTO

O primeiro movimento veio de Alexandre de Moraes.

O ministro determinou a progressão para o regime semiaberto de Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como “Débora do Batom”, uma das figuras que se tornaram símbolos dos atos de 8 de janeiro de 2023.

Débora havia sido condenada a 14 anos de prisão e ganhou enorme projeção nacional depois de ser registrada pintando com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, localizada em frente ao STF.

Na decisão, Moraes reconheceu que a condenada havia cumprido os requisitos legais necessários para a progressão.

Entre os elementos considerados estavam atividades laborais e a remição de pena por leitura.

Para o bolsonarismo, entretanto, a questão sempre foi além da progressão de regime.

Débora se transformou em símbolo de uma parcela da oposição que considera desproporcional a punição aplicada a participantes dos atos de 8 de janeiro.

A decisão, portanto, ganhou enorme repercussão política.

2. MORAES ANALISA PEDIDO DE FLÁVIO PARA VISITAR JAIR BOLSONARO

O segundo movimento também veio de Moraes.

Flávio Bolsonaro apresentou um novo pedido para visitar o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.

O pedido anterior havia sido negado no início da campanha eleitoral.

Desta vez, porém, Moraes encaminhou a solicitação ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para manifestação.

A decisão não representa autorização automática para a visita.

Mas o simples fato de o pedido ter avançado para análise da Procuradoria foi interpretado nos bastidores políticos como um sinal diferente daquele observado anteriormente.

Em um ambiente marcado por forte tensão entre o STF e o grupo político de Bolsonaro, qualquer mudança de procedimento passou a ser acompanhada de perto.

3. ARQUIVAMENTO DO INQUÉRITO CONTRA MARCOS DO VAL, ALLAN DOS SANTOS E OSWALDO EUSTÁQUIO

O terceiro episódio envolve uma investigação que atingia o senador Marcos do Val, os jornalistas Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, além de Ednardo Raposo.

O inquérito investigava suspeitas de obstrução de Justiça e incitação ao crime.

A Polícia Federal havia indiciado os investigados em 2025.

Depois da análise do material reunido, porém, a Procuradoria-Geral da República concluiu que as provas não eram suficientes para sustentar uma acusação criminal pelos delitos investigados.

A PGR analisou publicações em redes sociais, registros telefônicos, conversas, informações financeiras e fiscais e depoimentos.

A conclusão foi de que havia ataques e críticas contra agentes públicos, mas não elementos suficientes para demonstrar uma articulação organizada destinada a impedir investigações ou estimular crimes contra investigadores.

Moraes acolheu a manifestação da Procuradoria e determinou o arquivamento.

A decisão também revogou as ordens de prisão relacionadas a esse inquérito contra Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio.

É importante ressaltar: o arquivamento vale para essa investigação específica e não encerra automaticamente outros processos ou investigações envolvendo os mesmos personagens.

4. GILMAR MENDES ARQUIVA INVESTIGAÇÃO CONTRA ALFREDO GASPAR

O quarto episódio envolve Gilmar Mendes e Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.

O ministro determinou o arquivamento do pedido de investigação por suspeita de estupro.

A decisão acompanhou o entendimento da PGR, que apontou ausência de elementos suficientes para justificar o prosseguimento da apuração e identificou contradições nas informações apresentadas.

Gaspar sempre negou a acusação e chegou a realizar teste de DNA para contestar as alegações.

A acusação havia surgido em meio a uma intensa disputa política envolvendo o parlamentar durante a CPMI do INSS.

Agora, a investigação específica foi encerrada.

Mais uma vez, é necessário destacar: o arquivamento não significa que todos os conflitos ou outras apurações relacionadas ao episódio tenham sido encerrados.

QUATRO DECISÕES, UM NOVO CENÁRIO POLÍTICO

É justamente a sequência dos acontecimentos que chamou atenção.

Em um intervalo de aproximadamente 48 horas, o cenário apresentou:

• progressão de regime para Débora Rodrigues;

• análise de um novo pedido de Flávio Bolsonaro para visitar Jair Bolsonaro;

• arquivamento do inquérito contra Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ednardo Raposo;

• arquivamento da investigação contra Alfredo Gaspar.

Não existe, até o momento, uma declaração oficial do STF dizendo que essas decisões representam uma mudança de estratégia em relação ao bolsonarismo.

Mas politicamente, a sequência não passou despercebida.

O primeiro turno alterou o equilíbrio de forças.

Flávio Bolsonaro avançou para o segundo turno da eleição presidencial contra Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto o campo político associado a Jair Bolsonaro demonstrou força eleitoral em diferentes frentes.

O resultado criou um novo ambiente político em Brasília.

E, nesse ambiente, decisões judiciais que antes seriam analisadas individualmente passaram a ser observadas também pelo seu impacto político.

O ACORDO QUE PARTE DA POLÍTICA QUER — E A PRESSÃO QUE CRESCE POR OUTRO CAMINHO

Nos bastidores, existe uma discussão sobre a possibilidade de uma acomodação institucional entre os diferentes grupos políticos.

A questão central, entretanto, permanece:

haverá acordo ou haverá responsabilização?

Setores do bolsonarismo defendem que não deve existir qualquer espécie de acordo que deixe sem resposta aquilo que consideram abusos cometidos durante os últimos anos.

Entre as principais reivindicações está a responsabilização de autoridades que, na visão desses grupos, ultrapassaram os limites de suas funções.

Nesse ambiente, o impeachment de ministros do Supremo voltou ao centro do debate político.

A SOCIEDADE QUER UM ACORDO OU QUER RESPONSABILIZAÇÃO?

É preciso separar fato de interpretação.

Não há base, nesta matéria, para afirmar que toda a sociedade brasileira rejeita um acordo ou que exista uma maioria nacional comprovadamente favorável ao impeachment de ministros do STF.

Mas existe, sim, um sentimento político forte em setores da sociedade e do eleitorado de oposição de que não deve haver um “acordão” para apagar conflitos e decisões que consideram abusivas ou persecutórias.

Para esses setores, qualquer eventual pacificação precisa vir acompanhada de transparência, responsabilização e respeito aos limites constitucionais.

A mensagem é direta:

se houve perseguição, deve haver investigação; se houve abuso de autoridade, deve haver responsabilização; e se um ministro ultrapassou os limites constitucionais, existem mecanismos institucionais para que sua conduta seja analisada, inclusive o processo de impeachment, dentro das regras previstas pela Constituição.

O Brasil entra, portanto, em uma nova fase.

De um lado, cresce a pressão por pacificação institucional.

Do outro, cresce a resistência daqueles que não aceitam que uma eventual pacificação seja confundida com impunidade.

E é justamente nesse ponto que as quatro decisões de Moraes e Gilmar ganham uma dimensão política muito maior do que seus textos jurídicos isoladamente poderiam indicar.

O primeiro turno terminou.

Mas a disputa pelo futuro das instituições brasileiras está apenas começando.


THE ARENA TIMES — O MUNDO É A ARENA

Compartilhe como preferir

Copiar Link
WhatsApp
Facebook
Email