Narrativa de favoritismo externo para Flávio com impulso de perfis estrangeiros.

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Contas registradas fora do Brasil patrocinam publicações que usam dados da Polymarket para apresentar senador como favorito na eleição presidencial

Uma nova frente de disputa entrou no debate eleitoral brasileiro: a circulação de conteúdos patrocinados por contas registradas fora do país que apresentam Flávio Bolsonaro (PL) como favorito na corrida presidencial.

Levantamento publicado pelo Metrópoles mostra que perfis estrangeiros no X, antigo Twitter, fizeram publicações pagas em apoio ao senador e utilizaram dados da plataforma Polymarket para sustentar a narrativa de que Flávio teria ultrapassado Luiz Inácio Lula da Silva e se tornado o principal nome da disputa.

O próprio X identifica essas publicações como “Paid Partnership”, sinalização utilizada pela plataforma para informar que existe uma relação comercial ou incentivo financeiro associado ao conteúdo.

O detalhe mais relevante, entretanto, é que não foi identificado publicamente quem financiou os anúncios. Portanto, os dados disponíveis não permitem afirmar que a campanha de Flávio Bolsonaro, o PL ou qualquer governo estrangeiro tenha pago diretamente pelas publicações.

Polymarket vira ferramenta de construção de narrativa

O centro das publicações é a Polymarket, plataforma de mercado de previsões que passou a ganhar espaço no debate eleitoral brasileiro.

Os conteúdos patrocinados apresentam as oscilações da plataforma como se fossem um indicador direto da força eleitoral dos candidatos.

Em um dos casos citados pelo levantamento, uma publicação afirmou que Flávio havia ultrapassado Lula na Polymarket e apresentou esse movimento como evidência de que o senador teria se tornado o favorito para vencer a eleição.

O problema jornalístico está justamente nessa transformação: um mercado de previsões passa a ser utilizado como argumento para construir percepção de favoritismo eleitoral.

Isso não equivale a uma pesquisa eleitoral tradicional. Mercados de previsão medem posições financeiras e expectativas dos participantes da plataforma, enquanto pesquisas eleitorais entrevistam eleitores segundo metodologias específicas.

Ainda assim, quando esse tipo de informação é impulsionado para centenas de milhares de usuários, ele pode ganhar aparência de consenso ou de tendência eleitoral.

Perfis estrangeiros ampliam o alcance

Segundo o levantamento publicado pelo Metrópoles, a maioria das contas estrangeiras envolvidas nas publicações é identificada como americana. Algumas possuem centenas de milhares de seguidores.

O material também acabou sendo repercutido por figuras brasileiras ligadas ao campo político de Flávio.

Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, republicou algumas das publicações impulsionadas sobre o desempenho do senador na Polymarket.

Outros nomes ligados ao bolsonarismo também compartilharam conteúdos semelhantes, incluindo Mário Frias e Lucas Pavanato.

Em algumas dessas publicações apareceu a expressão “vai ser no primeiro turno”, reforçando a mensagem de que Flávio estaria em condições de vencer a eleição já na primeira etapa. A repetição da frase, entretanto, não é suficiente para comprovar que exista uma coordenação entre todos os perfis envolvidos.

A questão que permanece sem resposta

O ponto central da história está justamente naquilo que ainda não foi esclarecido:

quem está pagando para que essas mensagens sejam distribuídas?

O X informa que os conteúdos são patrocinados, mas, segundo a apuração publicada pelo Metrópoles, não permite identificar publicamente o responsável pelo aporte financeiro utilizado na parceria.

Essa ausência de transparência deixa aberta uma questão relevante em uma eleição brasileira marcada por forte disputa nas redes sociais.

É preciso separar, porém, duas coisas: a existência de publicidade paga e a identificação de seu financiador.

Até o momento, os dados apresentados mostram a primeira situação, mas não comprovam quem está por trás dos pagamentos.

Há também uma questão eleitoral

A legislação brasileira estabelece restrições ao impulsionamento de propaganda eleitoral.

A Lei das Eleições determina que o impulsionamento de conteúdo eleitoral deve observar requisitos específicos e ser contratado diretamente com provedor de aplicação de internet estabelecido no Brasil, além de outras exigências de identificação e finalidade. O TSE também registra que pessoas naturais não podem contratar impulsionamento de conteúdos.

A própria reportagem consultou especialista em direito eleitoral, que apontou que eventual comprovação de recursos estrangeiros poderia gerar consequências jurídicas. Mas a origem do dinheiro precisa ser efetivamente demonstrada; a nacionalidade de quem administra uma conta, por si só, não prova a origem estrangeira dos recursos.

Por isso, qualquer conclusão sobre eventual ilegalidade depende da identificação de quem contratou e pagou pelos anúncios.

Polymarket já havia utilizado publicidade política

O episódio não aparece isoladamente.

Segundo levantamento citado pelo Metrópoles e realizado pelo site Factchequeado, a Polymarket patrocinou 13 publicações no X entre março e maio. Dessas, 11 apresentavam narrativas favoráveis a políticos de direita ou críticas a nomes da esquerda.

A mesma estratégia teria aparecido em conteúdos sobre eleições na Colômbia e no Peru: transformar o desempenho de candidatos no mercado de previsões em sinal de força eleitoral.

Desde junho de 2025, a Polymarket mantém uma parceria com o X como plataforma de previsões de mercado.

Outro elemento mencionado na apuração é a participação de Donald Trump Jr. como investidor da Polymarket por meio da 1789 Capital e sua presença no conselho consultivo da empresa. A existência dessa relação empresarial, entretanto, não comprova que Trump Jr. ou a empresa tenham financiado as publicações sobre Flávio.

A disputa pela percepção do eleitor

O episódio acontece em uma eleição na qual a batalha pela percepção pública ganhou importância semelhante à disputa pelos números das pesquisas.

Flávio Bolsonaro passou a aparecer muito próximo de Lula em diferentes levantamentos, embora os resultados variem entre institutos. Isso aumenta o valor político de qualquer conteúdo capaz de transmitir a sensação de que um candidato está crescendo ou se tornando favorito.

É justamente nesse ambiente que os posts patrocinados ganham importância.

A mensagem não precisa necessariamente convencer o eleitor sobre uma proposta específica. Basta transmitir a impressão de que “o mercado já escolheu”, de que determinado candidato está crescendo ou de que uma vitória seria inevitável.

No caso de Flávio, é exatamente essa narrativa que aparece nas publicações analisadas.

Uma narrativa que ultrapassa as fronteiras

O fenômeno acrescenta uma nova camada à campanha brasileira.

Não se trata apenas de brasileiros discutindo a eleição nas redes sociais. Conteúdos produzidos e patrocinados por contas estrangeiras estão chegando ao público brasileiro e ajudando a difundir uma narrativa específica sobre a corrida presidencial.

Ao mesmo tempo, ainda não há evidência apresentada publicamente que permita afirmar que existe uma operação estrangeira coordenada para eleger Flávio Bolsonaro.

O que está documentado é mais específico — e, justamente por isso, merece investigação: contas registradas no exterior estão patrocinando conteúdos favoráveis ao candidato, utilizando números da Polymarket para sustentar a ideia de favoritismo, enquanto permanece desconhecida a identidade de quem financia essas publicações.

Em uma eleição cada vez mais disputada no ambiente digital, a pergunta que fica não é apenas quem está ganhando espaço nas redes, mas quem está pagando para determinadas narrativas chegarem até o eleitor brasileiro.

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