Em último discurso do atual mandato na Assembleia Geral, presidente deve falar sobre soberania, democracia e suposta interferência estrangeira; cenário eleitoral ficou mais competitivo na reta final
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca nesta terça-feira (22), em Nova York, para realizar seu último discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) durante o atual mandato. A fala acontece em um momento particularmente delicado para o governo: a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras e diante de uma disputa presidencial que se tornou mais apertada nas pesquisas.
Tradicionalmente responsável por abrir os discursos de chefes de Estado na Assembleia Geral, o presidente brasileiro falará antes de Donald Trump, colocando no mesmo palco dois governos que atravessam uma fase de forte tensão diplomática.
Lula deve defender o multilateralismo, a soberania nacional e a democracia. Também deve abordar as preocupações do governo brasileiro com possíveis interferências estrangeiras no processo eleitoral.
Por trás do discurso diplomático, entretanto, existe um cenário político doméstico que ajuda a explicar a escolha dos temas.
A eleição entrou no centro da agenda de Lula
A poucos dias do primeiro turno, Lula enfrenta uma disputa mais competitiva com Flávio Bolsonaro.
A pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro colocou Lula com 37% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, os dois aparecem tecnicamente empatados: 42% para Flávio e 41% para Lula. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 17 e 20 de setembro e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
Outro levantamento recente, da Palver, mostrou Flávio numericamente à frente no primeiro turno, com 42%, contra 41% de Lula. No segundo turno, o senador apareceu com 47%, contra 43% do presidente, embora a diferença também esteja sujeita à margem de erro da pesquisa.
Os números não são uniformes entre os institutos. O BTG/Nexus, por exemplo, apontou Lula com 40% e Flávio com 37% no primeiro turno, enquanto o Datafolha registrou 39% para Lula e 36% para Flávio.
O que mudou, portanto, não foi uma liderança consolidada de um candidato, mas o grau de competitividade da disputa.
Soberania vira mensagem eleitoral
É nesse ambiente que Lula chega à tribuna da ONU.
O presidente deve evitar, segundo a expectativa relatada por auxiliares, um confronto direto com Donald Trump. A estratégia tende a ser uma defesa mais ampla da soberania brasileira, da democracia e da autonomia do processo eleitoral.
A mensagem ganha força depois das declarações recentes de Lula sobre uma possível interferência americana nas eleições.
Em entrevista à CNN Internacional na segunda-feira (21), o presidente disse estar preocupado com a atuação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, e afirmou que existem suspeitas sobre possíveis tentativas de interferência nas eleições brasileiras.
Lula também relatou ter pedido diretamente a Trump que os Estados Unidos não interferissem no processo eleitoral brasileiro.
O tema permite ao presidente levar para o cenário internacional uma discussão que já está presente na campanha brasileira: até que ponto governos estrangeiros devem se envolver nas disputas políticas e eleitorais de outros países.
Flávio Bolsonaro muda o ambiente da eleição
Enquanto Lula prepara um discurso internacional sobre democracia e soberania, Flávio Bolsonaro consolidou-se como um dos principais nomes da disputa presidencial e passou a aparecer muito próximo do presidente em diferentes pesquisas.
O movimento ganhou velocidade ao longo de setembro. No Datafolha de 17 de setembro, por exemplo, Lula tinha 39% no primeiro turno, contra 36% de Flávio. A diferença ficou dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Na AtlasIntel/Bloomberg de 10 de setembro, Lula aparecia com 43% no primeiro turno, enquanto Flávio tinha 37,4%. No segundo turno, entretanto, havia empate técnico: 46,4% para Flávio e 46,2% para Lula.
O cenário também aparece em levantamentos de outras regiões. Em Minas Gerais, pesquisa Real Time Big Data divulgada em 21 de setembro mostrou equilíbrio entre os dois candidatos tanto no primeiro quanto no segundo turno.
Assim, a campanha entra na reta final com uma realidade diferente daquela observada meses atrás: Flávio deixou de ser apenas um candidato competitivo e passou a disputar diretamente o espaço eleitoral de Lula nas pesquisas.
O discurso na ONU como resposta política
É nesse contexto que o discurso desta terça-feira ganha importância.
A ONU oferece a Lula uma das maiores tribunas internacionais disponíveis para apresentar sua visão sobre o Brasil. O presidente deve falar sobre conflitos internacionais, mudanças climáticas, direitos humanos, comércio e a necessidade de reformar o Conselho de Segurança.
Mas a eleição brasileira inevitavelmente estará no pano de fundo.
Ao falar sobre soberania e democracia diante de representantes de 193 países, Lula poderá reforçar uma mensagem que também interessa diretamente à sua campanha: apresentar o Brasil como um país que deve decidir seus próprios rumos sem interferência externa.
O governo também tem criticado a estrutura atual do Conselho de Segurança da ONU, formado por cinco membros permanentes — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido — que possuem poder de veto.
Na avaliação de Lula, a estrutura atual perdeu capacidade de responder aos conflitos internacionais. O presidente voltou a criticar o órgão na segunda-feira e defendeu uma reforma que amplie sua representatividade.
Uma eleição que mudou de temperatura
O desafio político para Lula é que o discurso internacional acontece justamente quando a eleição doméstica se tornou mais apertada.
A menos de duas semanas do primeiro turno, pesquisas recentes apresentam resultados diferentes, mas várias apontam para uma disputa de alta competitividade entre Lula e Flávio Bolsonaro. Em alguns levantamentos, Lula aparece à frente; em outros, Flávio aparece numericamente na dianteira; em diversos cenários de segundo turno, os dois estão dentro da margem de erro.
Por isso, a passagem de Lula pela ONU ocorre em uma circunstância incomum: o presidente não fala apenas para líderes estrangeiros. Sua atuação internacional também será observada pelo eleitor brasileiro em plena reta final da campanha.
Entre a defesa da soberania, as críticas à política externa de Trump e a preocupação com o processo eleitoral, Lula terá uma tribuna global para apresentar sua visão do momento político brasileiro.
E, enquanto o presidente fala ao mundo, a disputa pela Presidência entra em uma das fases mais decisivas dentro do Brasil.