De R$ 8,3 bilhões a mais de R$ 16 bilhões em lucro: como o BTG Pactual construiu, entre 2023 e 2026, um dos ciclos de expansão mais impressionantes do sistema financeiro brasileiro
Existe uma pergunta inevitável quando se observa a trajetória do BTG Pactual desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva:
o que aconteceu com o banco desde que Lula voltou ao Palácio do Planalto?
A resposta está nos números — e eles são difíceis de ignorar.
No último ano antes do retorno de Lula à Presidência, o BTG Pactual havia encerrado 2022 com lucro líquido ajustado de aproximadamente R$ 8,3 bilhões. Em 2025, o número já havia chegado a R$ 16,7 bilhões.
Em três anos, o lucro praticamente dobrou.
As receitas, que estavam na casa de R$ 17,2 bilhões em 2022, chegaram a aproximadamente R$ 33 bilhões em 2025.
E o crescimento continuou em 2026.
No segundo trimestre deste ano, o banco registrou novo recorde trimestral, com R$ 5,14 bilhões de lucro líquido ajustado, alta de aproximadamente 23% sobre o mesmo período do ano anterior. A receita chegou a R$ 10,4 bilhões, enquanto o retorno sobre o patrimônio médio, o ROAE, atingiu 26,7%. (The Rio Times)
Mas há uma ressalva essencial.
Esses números não significam que Lula tenha causado o crescimento do BTG.
O banco já estava crescendo antes de 2023. O que os dados mostram é outra coisa: o período do governo Lula coincidiu com uma extraordinária aceleração de uma estratégia que já estava em andamento.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais interessante da história.
O BTG que entrou em 2023 não era o mesmo banco de uma década atrás
Quando Lula reassumiu a Presidência, em janeiro de 2023, o BTG já havia deixado de ser apenas a tradicional casa de investimentos conhecida por operações de mercado de capitais, fusões e aquisições e grandes negócios corporativos.
O banco já vinha construindo uma plataforma muito mais ampla.
A estratégia era clara: aproveitar a marca, a capacidade de distribuição e a enorme rede de clientes corporativos para entrar em segmentos que tradicionalmente pertenciam aos grandes bancos universais.
Crédito.
Wealth Management.
Asset Management.
Varejo.
Banco digital.
Seguros.
Private Banking.
Serviços internacionais.
Comércio exterior.
E, principalmente, uma combinação de crescimento orgânico com aquisições.
Os relatórios anuais do próprio BTG mostram essa evolução ano após ano. O banco mantém em seu portal de Relações com Investidores os relatórios de 2022, 2023, 2024 e 2025, permitindo acompanhar a transformação diretamente pelas demonstrações financeiras e apresentações oficiais. (BTG Pactual)
2022: a fotografia antes da volta de Lula
Para entender o tamanho da transformação, é preciso começar pelo ponto de partida.
Em 2022, o BTG encerrou o ano com aproximadamente:
R$ 17,2 bilhões de receitas
R$ 8,3 bilhões de lucro líquido ajustado
R$ 144 bilhões de carteira de crédito
e cerca de R$ 1,3 trilhão em ativos sob gestão e administração, considerando as métricas então divulgadas.
Era um banco extremamente rentável, mas ainda menor e menos diversificado do que o BTG que existe atualmente.
Essa é a linha de base.
A partir daí começa a história do ciclo Lula 3.
2023: o primeiro ano de Lula termina com um BTG ainda maior
O primeiro ano do novo governo não foi simples para o sistema financeiro.
O Brasil começou 2023 enfrentando incertezas fiscais, juros elevados e a crise envolvendo Americanas, que atingiu profundamente o mercado de crédito e levou instituições financeiras a revisar suas exposições e provisões.
Mesmo assim, o BTG avançou.
O banco encerrou 2023 com aproximadamente:
R$ 21,6 bilhões de receitas
R$ 10,4 bilhões de lucro líquido ajustado
e crescimento de cerca de 25% no lucro em relação a 2022.
O resultado representava uma mudança importante.
O BTG não estava apenas sobrevivendo ao ambiente de juros altos.
Estava crescendo dentro dele.
A grande sacada: transformar dinheiro administrado em uma segunda máquina de receitas
Uma das mudanças mais importantes do período foi o crescimento de Wealth Management e Asset Management.
O raciocínio econômico é poderoso.
Um banco de investimento tradicional depende muito de operações.
Uma operação de M&A acontece ou não acontece.
Uma emissão acontece ou é adiada.
Uma oferta de ações depende da janela de mercado.
Uma operação de crédito depende da demanda.
Já o patrimônio administrado gera receitas recorrentes.
Quanto mais clientes, mais recursos sob gestão.
Quanto mais recursos, maior o potencial de receitas.
É por isso que o BTG passou a buscar agressivamente clientes de alta renda.
E não apenas organicamente.
Comprou plataformas. Comprou gestoras. Comprou carteiras. Comprou relacionamentos.
Órama: comprar distribuição em vez de construir do zero
Um dos exemplos mais claros foi a aquisição da Órama.
Anunciada em 2023 por aproximadamente R$ 500 milhões, a operação colocou nas mãos do BTG uma plataforma com cerca de 360 mil clientes e R$ 18 bilhões em ativos sob custódia.
A aquisição foi concluída em 2024.
Mais do que comprar uma corretora, o BTG comprou uma porta de entrada para o varejo.
A lógica era simples:
em vez de gastar anos construindo uma grande base de investidores de varejo, compre uma plataforma que já possui clientes.
Esse modelo seria repetido diversas vezes.
2024: a transformação ganha velocidade
Se 2023 mostrou que o BTG conseguia continuar crescendo sob o novo ambiente político e econômico, 2024 mostrou que a estratégia poderia ser acelerada.
O banco terminou o ano com aproximadamente:
R$ 25,1 bilhões em receitas
R$ 12,3 bilhões em lucro líquido ajustado
ROAE de 23,1%
e uma carteira de crédito próxima de R$ 221,6 bilhões.
A rentabilidade é particularmente relevante.
Crescer é relativamente fácil quando uma instituição aceita sacrificar margem.
O que chama atenção no BTG é que ele cresceu mantendo — e depois aumentando — o retorno sobre o patrimônio.
Esse é um dos indicadores que ajudam a explicar por que o mercado passou a enxergar o BTG como uma máquina de geração de capital, e não apenas como um banco de investimento.
A máquina de crédito
A carteira de crédito talvez seja o indicador que melhor demonstra a mudança de escala.
Em 2022:
aproximadamente R$ 144 bilhões.
Em 2024:
mais de R$ 221 bilhões.
Em 2025:
aproximadamente R$ 262 bilhões.
No segundo trimestre de 2026:
R$ 366,6 bilhões.
Em outras palavras, em pouco mais de três anos, a carteira cresceu para aproximadamente 2,5 vezes o tamanho registrado no final de 2022.
E existe uma característica importante:
o BTG não está simplesmente emprestando dinheiro para consumidores.
O grande motor continua sendo o crédito corporativo.
Grandes empresas precisam de capital de giro.
Precisam financiar projetos.
Precisam emitir dívida.
Precisam fazer hedge.
Precisam refinanciar passivos.
Precisam comprar concorrentes.
Precisam financiar comércio exterior.
E o BTG está presente em praticamente todas essas etapas.
O ambiente de juros altos: problema para uns, oportunidade para outros
O Brasil passou boa parte do período com juros muito elevados.
Isso cria problemas.
O custo do dinheiro sobe.
Empresas ficam mais endividadas.
Famílias sofrem.
A inadimplência pode aumentar.
A demanda por crédito pode diminuir.
Mas o mesmo ambiente também aumenta a importância de produtos financeiros de renda fixa e cria oportunidades para instituições com forte capacidade de intermediação.
O BTG estava exatamente nessa posição.
De um lado, emprestava.
De outro, distribuía produtos financeiros.
Administrava patrimônio.
Fazia operações estruturadas.
Atendia grandes empresas.
Atuava em mercados de capitais.
Essa diversificação é uma das explicações para o desempenho do banco.
2025: o ano em que a estratégia virou números gigantes
Se existe um momento que simboliza a transformação, é 2025.
O BTG encerrou o ano com aproximadamente:
R$ 33 bilhões de receitas
R$ 16,7 bilhões de lucro líquido ajustado
ROAE próximo de 27%
O lucro anual cresceu cerca de 35% em relação ao ano anterior.
No quarto trimestre, o resultado foi ainda mais impressionante: R$ 4,6 bilhões de lucro ajustado, crescimento de aproximadamente 40% em relação ao quarto trimestre de 2024.
A Reuters classificou o resultado como o mais forte da história do banco. (Reuters)
É aqui que a narrativa muda.
O BTG não era mais simplesmente um banco que havia crescido.
Era uma instituição que estava criando uma escala nova.
E então vieram as aquisições
A estratégia de aquisições do BTG no período merece ser analisada separadamente.
Porque existe um padrão.
O banco não está comprando empresas aleatoriamente.
Está comprando distribuição, clientes, patrimônio, licenças e capacidade operacional.
Em outras palavras:
o BTG está comprando tempo.
Construir uma plataforma de Wealth Management pode levar uma década.
Comprar uma carteira pronta pode levar meses.
Construir uma presença bancária nos Estados Unidos pode levar muitos anos.
Comprar um banco com licença pode acelerar esse processo.
Construir uma grande operação de varejo do zero custa bilhões e demora.
Comprar uma corretora já estabelecida é mais rápido.
Essa é a lógica por trás do movimento.
FIS Privatbank: a porta para a Europa
Em 2023, o BTG comprou o FIS Privatbank, de Luxemburgo.
O negócio abriu uma plataforma europeia para o grupo.
Depois, a instituição passou a operar como BTG Pactual Europe.
Não era apenas uma aquisição geográfica.
Era uma maneira de aproximar o BTG de clientes internacionais e ampliar a capacidade de oferecer serviços financeiros fora do Brasil.
M.Y. Safra: a aposta americana
Talvez nenhuma aquisição tenha sido tão estratégica quanto o M.Y. Safra Bank.
Em 2024, o BTG anunciou a compra do banco americano.
O M.Y. Safra tinha aproximadamente US$ 404 milhões em ativos na época do anúncio.
À primeira vista, é pouco diante do tamanho do BTG.
Mas essa comparação é enganosa.
O verdadeiro ativo era a possibilidade de ter uma estrutura bancária própria nos Estados Unidos.
A aquisição recebeu aprovação do Federal Reserve em dezembro de 2025.
Posteriormente, o negócio foi concluído e a instituição passou a operar como BTG Pactual Bank, N.A.
O movimento abriu uma nova possibilidade para o BTG:
atuar como banco nos Estados Unidos, e não apenas como instituição brasileira com clientes internacionais.
Isso é muito mais relevante do que o tamanho do balanço adquirido.
Greytown: comprar relacionamento com famílias ricas
Também em 2024, o BTG comprou a Greytown Advisors, de Miami.
A gestora acrescentou aproximadamente US$ 1 bilhão em recursos de famílias de alta renda da América Central.
É outra peça do mesmo quebra-cabeça.
O BTG quer ser o banco de famílias ricas latino-americanas, independentemente de onde elas estejam.
Brasil.
Miami.
Europa.
América Central.
Uruguai.
O patrimônio pode estar em diferentes países.
O relacionamento, entretanto, pode continuar dentro do ecossistema BTG.
Sertrading: quando o banco começa a entrar na economia real
A aquisição da Sertrading mostra outra dimensão da estratégia.
A empresa atua em comércio exterior e movimentou aproximadamente R$ 19 bilhões em operações de comércio exterior em 2023.
Aqui aparece uma lógica diferente.
O BTG não compra apenas uma empresa para obter sua receita.
Ele pode transformar a operação em um canal de distribuição para crédito, câmbio, financiamento e outros produtos financeiros.
A empresa precisa importar?
O BTG pode financiar.
Precisa de câmbio?
O BTG pode oferecer.
Precisa de capital de giro?
O BTG pode financiar.
Tem clientes empresariais?
O BTG pode atender esses clientes.
É o conceito de ecossistema.
Clave: mais patrimônio sob gestão
Em 2024, o BTG também avançou sobre a Clave Capital.
A aquisição acrescentou uma operação com aproximadamente R$ 6 bilhões em ativos e cerca de 25 mil cotistas.
Mais uma vez, o ativo estratégico não é apenas o dinheiro administrado.
É a combinação:
clientes + gestores + produtos + distribuição + marca.
Julius Baer: o ataque ao segmento de ultra-ricos
Em 2025, veio uma das operações mais simbólicas.
O BTG comprou a operação brasileira do Julius Baer por aproximadamente:
R$ 615 milhões.
A operação envolvia cerca de:
R$ 61 bilhões em ativos sob gestão.
O que o BTG estava comprando?
Não apenas uma carteira.
Estava comprando acesso a famílias extremamente ricas.
No mercado financeiro, isso tem enorme valor.
Um cliente de alta renda pode utilizar:
- investimentos;
- crédito;
- seguros;
- planejamento patrimonial;
- offshore;
- câmbio;
- fundos;
- estruturação;
- sucessão;
- financiamento de empresas.
Quanto maior o relacionamento, maior o potencial de monetização.
JGP: o retorno de uma figura histórica
Outro movimento emblemático foi a compra da área de Wealth Management da JGP.
A operação adicionou aproximadamente R$ 18 bilhões em ativos.
Mas havia também um componente simbólico.
André Jakurski, um dos nomes históricos ligados à origem do Pactual, voltou ao ecossistema do banco para atuar na área de Family Office.
A mensagem era clara:
o BTG estava reconstruindo uma grande plataforma para famílias de alta renda.
HSBC Uruguai: a construção do BTG latino-americano
A expansão também atravessou a fronteira brasileira.
O BTG anunciou a aquisição da operação do HSBC no Uruguai por aproximadamente:
US$ 175 milhões.
A operação envolve dezenas de milhares de clientes e amplia a presença do BTG em um país onde o segmento de serviços financeiros para empresas e clientes de patrimônio elevado tem relevância estratégica.
Não se trata apenas de conquistar o Uruguai.
É uma peça de uma estratégia maior:
construir um banco latino-americano.
2026: o BTG já está operando em outro patamar
Os resultados mais recentes reforçam a tese.
No segundo trimestre de 2026, o banco registrou:
R$ 5,14 bilhões de lucro líquido ajustado
R$ 10,4 bilhões de receitas
ROAE de 26,7%
e carteira de crédito de aproximadamente R$ 366,6 bilhões.
O lucro cresceu aproximadamente 23% em relação ao segundo trimestre de 2025. (Folha de S.Paulo)
Mas há uma informação ainda mais interessante.
O BTG chegou ao trimestre com aproximadamente R$ 2,7 trilhões em ativos sob gestão, segundo dados divulgados sobre o resultado. (Folha de S.Paulo)
O banco, portanto, está cada vez menos dependente de uma única fonte de receita.
A próxima fronteira: varejo
Existe agora um novo capítulo.
Depois de dominar segmentos sofisticados do mercado financeiro, o BTG quer aumentar sua presença no varejo.
A estratégia passa pelo banco digital, pela distribuição de investimentos e por operações de crédito ao consumidor.
Reportagens especializadas apontam que a instituição está estruturando o varejo como uma nova avenida de crescimento e avaliando uma participação potencialmente muito maior dessa divisão nas receitas no longo prazo. (NeoFeed)
É uma mudança significativa.
Durante décadas, os grandes bancos brasileiros construíram seus impérios através do varejo.
O BTG fez o caminho inverso.
Começou no topo:
grandes empresas → mercado de capitais → investidores sofisticados → grandes patrimônios.
Agora está descendo a pirâmide.
varejo → crédito ao consumidor → banco digital.
Digimais: o próximo movimento?
Em abril de 2026, o BTG assinou acordo vinculante para adquirir o Banco Digimais.
A operação ainda depende das aprovações necessárias e, portanto, não deve ser contabilizada como aquisição concluída.
Mas o movimento é revelador.
Se aprovado, o negócio pode reforçar justamente o segmento que o BTG pretende desenvolver:
banco de varejo e crédito ao consumidor.
Ou seja, o BTG está tentando completar o último pedaço do quebra-cabeça.
O que mudou entre 2022 e 2026?
A transformação pode ser resumida em uma tabela.
| Indicador | 2022 | 2025/2026 |
| Lucro ajustado | R$ 8,3 bi | R$ 16,7 bi em 2025 |
| Receita | R$ 17,2 bi | R$ 33 bi em 2025 |
| Crédito | R$ 144 bi | R$ 262 bi em 2025 |
| Crédito 2T26 | — | R$ 366,6 bi |
| ROAE | 21% | 27% |
| Recursos administrados | R$ 1,3 tri* | R$ 2,7 tri em 2T26 |
| Presença internacional | relevante | EUA + Europa + América Latina |
| Varejo | menor | nova avenida estratégica |
| Banco nos EUA | não | sim |
| M&A | relevante | uma das peças da estratégia de expansão |
*As metodologias e definições de AuM/AuA/WuM mudaram ao longo dos anos, portanto comparações diretas precisam ser feitas com cuidado.
Os relatórios oficiais do BTG permitem acompanhar essa evolução desde 2022 até o relatório anual de 2025. (BTG Pactual)
Afinal, Lula ajudou ou não o BTG?
Essa é a parte que exige mais cuidado.
Seria fácil produzir uma manchete dizendo:
“BTG dobra o lucro durante governo Lula.”
O dado é verdadeiro.
Mas a interpretação pode ser enganosa.